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Editorial da Voz de Lamego: As cores da (in)tolerância…

Somos tolerantes. Intolerantes são os outros. Ou talvez sejamos as duas coisas, dependendo dos temas com que nos deparamos!

Existam pessoas, preenchidas de humildade e sabedoria, com a elasticidade generosa para acolher e respeitar os outros, mesmo divergindo, e capazes de integrar, aprendendo, as diferenças, como riqueza e não como estorvo ou sombra!

Quando nos autocaracterizamos, somos humildes, tolerantes, frontais… e ninguém nos dá lições de moralidade, lealdade, honestidade.

Os maiores teóricos da liberdade foram os maiores ditadores… à esquerda e à direita! Hitler, Mussolini, Lenine… Bolsonaro? Países em que imperou o fascismo ou o comunismo… Portugal, Itália, Rússia, China… e ninguém lhes poderia (então) dizer que eram ditadores… pois estavam a defender os direitos dos seus povos!

No dia 25 de maio morreu George Floyd, afro-americano, depois de um polícia de Minneapolis se ter ajoelhado sobre o seu pescoço, durante oito minutos e quarenta e seis segundos, enquanto estava deitado de bruços na estrada e a dizer que não conseguia respirar. De imediato se multiplicaram as manifestações contra o racismo, o abuso de poder e a descriminação. Pena foi, novamente, que algumas minorias extremistas se apropriassem da causa, como se não dissesse respeito a todos.

Um erro… não se corrige com outro. A violência não se corrige com violência, apenas a multiplica. Se a um excesso se responde com outro, o que resulta é destruição.

As manifestações integram muitas pessoas que nada têm a ver com as causas que as provocam. É lamentável. As boas intenções de uns são adulteradas pela inconsciência, burrice e oportunismo de outros. As diversas manifestações antirracistas, relevantes e oportunas, são ensombradas e perdem o sentido quando se escolhe o caminho da violência e do desrespeito pelos outros. Há cristãos que se converteram a movimentos religiosos e queriam reescrever a pertença religiosa, apagando o registo do batismo, quase como quando um relacionamento termina e se rasgam as fotografias… como se dessa forma também a memória fosse apagada.

Como portugueses talvez tivéssemos de criar um tribunal para julgar Afonso Henriques e os reis que lhe sucederam. Talvez tivéssemos que queimar livros, romances e poemas, rasgar fotos, desgravar sons e películas… talvez precisássemos de destruir praças e monumentos e não apenas colocar-lhes outros nomes!

A história enraíza-nos no que somos, assumindo que os nossos antepassados fizeram coisas boas e outras menos boas, o que também nos acontece e aos nossos contemporâneos. Porém, não nos cabe tanto julgar ou mesmo destruir a história, sabendo que se tivéssemos vivido nesses tempos poderíamos ter sido as vítimas ou os vilões! Quem o poderá saber?!

Sem renegarmos as nossas raízes, cabe-nos construir hoje a história, contribuir para um mundo mais solidário e fraterno, lançando novas raízes que integrem e incluam solidariamente os que seguem no mesmo barco que nós. Do passado, poderemos sempre colher lições… para não cairmos nos erros que destroem, e possamos avançar e progredir num caminho de humanização e integração…

Regressemos às cores da (in)tolerância. Seremos tolerantes quando deixamos andar e não queremos saber do outro?

Seremos tolerantes quanto respeitamos desde que não nos chateiem, não nos incomodem, não nos calquem os calcanhares e não nos cheguem mostarda ao nariz?

Sou tolerante… com os meus amigos e desde que não divirjam e/ou sejam da minha cor clubística, da minha área político-partidária, pertençam à minha religião!!!

O caminho da tolerância é aceitação do outro, com as suas qualidades e fragilidades, respeitando-o como pessoa, amando e cuidando.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/29, n.º 4564, 16 de junho de 2020

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