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Editorial Voz de Lamego: Cruz, uma âncora, um leme, uma esperança

A última sexta-feira de março, dia 27, ficará, por certo, na nossa memória por muito tempo. Acompanhamos, à distância, o momento extraordinário de oração promovido pelo Papa Francisco. O céu uniu-se à iniciativa papal, sério, sublime e cinzento, nuvens densas e chuva copiosa, quais lágrimas em sintonia com tantas vítimas do coronavírus, mas também por aqueles que, esgotados, continuam a oferecer o seu trabalho e as suas vidas para salvar outras vidas.

Colados ao ecrã da televisão, do computador ou do telemóvel, pudemos subir, com o Papa Francisco, a colunata de São Pedro, inspirados pela sua fé, firme e confiante, em passos lentos e dolentes, com um semblante compenetrado, comovente e interpelante.

Uma praça vazia, onde todos os dias circulavam, até há pouco tempo, centenas de pessoas, transformando-se em milhares nas audiências gerais e nas celebrações públicas. O homem vestido de branco – como não lembrar aqui o segredo de Fátima – caminhava entre os escombros, os sofrimentos, as mortes, os desamparados, os desistentes; carregou-nos consigo, ao jeito de Jesus, o Bom Pastor, e aos nossos anseios e receios, incertezas e inseguranças.

Ao entardecer… (Mc 4, 35)! Assim começava o Evangelho e assim iniciava o Papa a sua meditação sobre a hora que passa. “Desde há semanas que parece entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderam-se das nossas vidas… revemo-nos temerosos e perdidos”, tal como os apóstolos, em alto mar, em meio de uma tempestade que ameaça destruí-los e, agora a nós, assolados por esta pandemia, qual tempestade, que pesa sobre a humanidade inteira! Jesus vai na popa, onde o barco afunda primeiro, a dormir, confiando no Pai. Procuremos, incentiva o Papa, compreender a pergunta dos discípulos: “Mestre, não Te importas que pereçamos?” (3, 38). Como se Jesus não se importasse com a sorte dos discípulos! Como se Deus estivesse alheado das tormentas dos homens, Ele que em Cristo Se faz peregrino connosco.

No meio da praça, deserta… lá ao fundo, somente os agentes de segurança pública… soa a interpelação inelutável do Papa: “Ninguém se salva sozinho… Sozinhos afundamos”. E prossegue: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar a estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos”.

Com efeito, “o Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e a ativar a solidariedade e a esperança… É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida”. Temos um leme, uma âncora, uma esperança, a Cruz que nos salva. E da Sua Cruz, “o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3) e deixemos que reacenda a esperança”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/18, n.º 4553, 31 de março de 2020

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