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Entrevista com o Comandante dos Bombeiros de Moimenta da Beira

“Os bombeiros precisam que lhes seja reconhecido o seu trabalho”

José Requeijo, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira, é entrevistado por Andreia Gonçalves para o nosso jornal.

José Requeijo herdou do pai, não só o nome, como a vocação para se tornar bombeiro. O ídolo deixou-lhe um legado e ensinamentos que o orientam até hoje. O comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira diz que “quando a sirene toca o primeiro pensamento é que alguém sem nome, sem cor, sem credo, sem posição política, precisa de ajuda” e por isso é preciso fazer de tudo para salvar vidas….

José Requeijo é, hoje, comandante dos bombeiros voluntários de Moimenta da Beira. Se recuar no tempo o que andaria a fazer há 40 anos atrás?

Bom, 40 anos atrás, foi há muito tempo era eu uma criança, muito jovem ainda, que iniciava o meu percurso escolar na escola primária, talvez na quarta classe, no entanto  já vivia o ambiente dos bombeiros pela mão do meu pai que me leva a fardar para a inauguração de um veiculo de combate a incêndios, do mais moderno que havia na região, que ficou famoso pelo nome “Jipão”, um Land Rover com motor a gasolina e que era o primeiro equipado com bomba acopolada e tanque de água de 400 litros, máquina fantástica. Um momento marcante que, ainda, hoje recordo com nostalgia.

O seu pai foi e continua a ser uma referência. Sente a responsabilidade de ser o filho do anterior comandante José Requeijo? Que ensinamentos traz, sempre, consigo?

O meu pai é a minha referência, a minha estrelinha orientadora, o meu conselheiro, o meu ídolo e continua a ser o meu companheiro. Claro, que sentir e verificar, no dia-a-dia que continua a ser uma referência nos bombeiros e, após tantos anos da sua morte, acresce-me, ainda, mais responsabilidade e em permanência, pela sua memória pela sua personalidade e pelos ensinamentos que me deixou. Não raros são os dias que me vejo a pensar em como ele resolveria ou como abordaria determinada situação, os ensinamentos e os seus conselhos são permanentes e diários. Revejo-me muito nele, muitas das minhas decisões são conselhos e aprendizagem desses momentos.

O que é mais difícil para um comandante, lutar pela vida dos outros ou lidar com a morte de alguém?

Difícil separar a dificuldade das duas, pois a ambiguidade da vida e da morte estão intimamente ligadas à nossa missão dos bombeiros. E se por um lado o nosso objetivo primeiro é a salvaguarda da vida, o que nos faz empenhar e aplicar todo o nosso conhecimento, esforço pessoal e profissionalismo, por outro lado e por natureza o ser humano não está preparado para lidar com a morte, muito menos um Comandante que reside num concelho pequeno e conhece toda a população. Sou colocado em situações sensíveis e delicadas que vão para além da função que desempenho tendo que, na maioria das vezes, lidar com sentimentos pessoais e relações próximas que elevam o patamar de tratamento emocional e psicólogo muito forte. Contudo todos estes anos vão-me dando alguma experiência para poder lidar e enfrentar situações desta complexidade.

Quando está no terreno, qual é a sua verdadeira missão?

Missão principal: a salvaguarda de vidas, dos bens e do ambiente. Este é o princípio que me orienta e que advém das missões do Corpo de Bombeiro. Quando vou para o terreno tenho  sempre, como missão que os danos já causados pelo incidente ou acidente não se agravem mais, no entanto também tenho uma missão de comando de todos os elementos e forças intervenientes na operação, sendo muitas das vezes um trabalho muito complexo pela natureza do evento e das características que nos envolvem, não deixando nunca descorada a segurança de todos os Bombeiros e operacionais.

Para aqueles que estão a pensar defender o lema “vida por vida”, ser bombeiro é uma opção ou vocação? 

Ser Bombeiro é uma opção que todos podemos tomar, no entanto só quem te vocação se mantém e faz carreira nos bombeiros. As exigências, a dedicação e disponibilidade necessárias para o bom cumprimento da missão de salvamento de vidas, de defesa dos bens e cuidado do ambiente, no fundo fazer jus ao lema “Vida por Vida” é preciso vocação essencialmente.

O que pensa quando a sirene soa?

O meu primeiro pensamento é que alguém sem nome, sem cor, sem credo, sem posição política, precisa de ajuda, alguém está numa situação de dificuldade, é necessário socorrer.

O que é que os bombeiros precisariam, a nível nacional, para desenvolver melhor o seu trabalho?

Os bombeiros precisam, principalmente, que lhes seja reconhecido o seu trabalho em prol da população à dimensão dos seus serviços, isto no que ao estado se refere, pois não é possível continuar a motivar gente voluntária e gratuitamente para as fileiras dos bombeiros sem que lhes seja atribuída qualquer compensação ou diferenciação positiva ao nível social e fiscal. Hoje a sociedade está mais exigente e ciente dos seus direitos, os desafios são diários e quem abdica do seu tempo e da sua vida pessoal para que de maneira profissional e qualificada deem a sua vida em defesa de outra e do seu país, não pode nunca ser tratado como um outro comum cidadão, muitas das vezes sem um ouvir um simples obrigado.

Portugal arde todos os anos de forma catastrófica. Acha normal que, depois dos cenários dramáticos que assistimos, nada se altere? Afinal, quem deveria fazer algo e porque não faz?

No panorama nacional ao nível dos incêndios florestais, temos o antes de 2017 e o após 2017.

Os ensinamentos que retiramos dos trágicos acontecimentos fizeram com que os responsáveis políticos pela gestão e ordenamento da floresta tomassem medidas concretas no terreno, no fundo que aplicassem as leis que estavam em vigor desde 2006 e que nunca passaram muito do papel, claro está com as devidas atualizações necessárias ao contexto atual.

Assim, vemos hoje as autoridades competentes e outros agentes do sistema a efetuarem contactos e levantamentos de situações com maior perigosidade para as populações, fazerem uma caminhada com todos e em conjunto para ações de sensibilização da população, acompanhamento na gestão e limpeza dos espaços florestais, no licenciamento de utilização de fogo para redução de combustíveis, todas estas ações influenciam positivamente os comportamentos de risco e fazem com que se possa reduzir o numero de ignições durante o ano, principalmente no período mais critico, reduzindo  assim, e por consequência a área ardida anual.

Os responsáveis pelo sistema aos mais variados níveis, desde o patamar mais baixo Junta de Freguesia, Municipal, Distrital e Nacional devem consolidar um sistema que se quer capaz, qualificado e pronto para responder cada um no seu nível de resposta, no entanto será preciso interligar todos os intervenientes nos pilares da organização, em primeiro a prevenção e ordenamento do território, pois só um território cuidado, ordenado e resiliente pode enfrentar grandes ocorrências como são os incêndios florestais.

Quantas horas já esteve sem dormir seguidas na tentativa de controlar um incêndio?

O tempo que já estive num incêndio em permanência e sem dormir na tentativa de poder controlá-lo e depois poder descansar tranquilamente foi em agosto de 2013, aquando de um grande incêndio ocorrido no município, na freguesia de Castelo, e que durou cerca de 30 horas.

Estando na Liga dos Bombeiros, sente união com os colegas para tentarem, acima de tudo, dignificar esta profissão que ainda é tão pouco valorizada pelo poder político?

A Liga dos Bombeiros Portugueses, sendo a confederação que representa todos os bombeiros portugueses numa estrutura assente nas federações distritais e nas 470 Associações Humanitárias Corpos de Bombeiros, faz no seu dia-a-dia um trabalho extraordinário na defesa dos bombeiros portugueses, que no concerne às suas missões junto da população mas também nas negociações e exigências junto do poder central. Tenho noção e também a experiência vivida que os nossos governantes sabem e reconhecem o nosso valor, sabem e reconhecem a importância da nossa missão e do trabalho desenvolvido, sabem e reconhecem a necessidade da nossa existência enquanto agente de proximidade, no entanto também reconheço que na sua maioria das vezes os discursos bonitos dos políticos não passam de sábias e eloquentes palavras que no sentido prático e de exequibilidade se traduzem em ações reduzidas ou nulas.

E porque todos sabem do valoroso trabalho e da credibilidade granjeada pela Liga dos Bombeiros Portugueses ao longo dos tempos confiam no nosso trabalho, apoiam a nossa tarefa, credibilizam as nossas decisões, nesse sentido acredito que este apoio e esta união entre os bombeiros portugueses tem vindo a dar frutos e que num futuro muito próximo o paradigma do associativismo e dos corpos de bombeiros irão viver uma nova realidade que lhes vai conferir na sua existência um patamar de excelência que lhes é de direito.

in Voz de Lamego, ano 90/13, n.º 4548, 26 de fevereiro de 2020

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