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Jaime Gouveia: viagem do Historiador pelo passado, presente e futuro

Entrevista para a Voz de Lamego conduzida por Andreia Gonçalves

Jaime Ricardo Gouveia é natural de Leomil, Moimenta da Beira. Tem 17 livros publicados, é atualmente investigador do Centro de História da Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra, professor convidado na mesma instituição e professor credenciado da pós-graduação da Universidade Federal do Amazonas, no Brasil.

Ganhou o prémio “Calouste Gulbenkian”, atribuído pela Academia Portuguesa da História, pelo seu livro, “A quarta porta do inferno. A vigilância e disciplinamento da luxúria clerical no espaço luso-americano (1640 – 1750)”, resultante da tese de doutoramento defendida no Instituto Universitário Europeu de Florença, Itália, em outubro de 2012.

Como surgiu a escolha deste tema para a sua tese de doutoramento e quais as conclusões mais pertinentes que conseguiu comprovar com esta investigação?

Surgiu na sequência da vontade em prosseguir e expandir cronológica e tematicamente a minha dissertação de mestrado intitulada “O Sagrado e o Profano em Choque no Confessionário. O delito de solicitação no Tribunal da Inquisição. Portugal, 1551-1700”. As conclusões desta tese, também publicada em livro, incitaram-me a investigar, no doutoramento, um problema pertinente do ponto de vista historiográfico, através de um enfoque comparativo entre Portugal e o Brasil. Tratou-se de conhecer quais os mecanismos de justiça (episcopal e inquisitorial) utilizados no período compreendido entre 1640 e 1750 para vigiar e disciplinar o clero. A investigação foi conduzida numa instituição internacional com uma bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e outra da Fundação Para a Ciência e Tecnologia, usando bibliografia produzida neste campo de estudos e uma profunda, criteriosa e exaustiva recolha de fontes primárias, grande parte das quais inéditas, e depositadas em diversos arquivos existentes nos dois lados do Atlântico. Entre as várias conclusões a que cheguei com este trabalho, destaco a refutação de um argumento durante muito tempo dominante, segundo o qual entre os séculos XVI e XVIII predominou na América Portuguesa um padrão quase livre de comportamento sexual e moral dos clérigos e dos leigos, devido ao facto de as autoridades eclesiásticas que os deviam instruir, vigiar e punir se terem demitido propositadamente dessa função, atitude estimulada pela coroa visando a atração de colonos e o incremento da procriação. Concluiu-se que isto não é verdade. Tanto em Portugal como no Brasil (e deste ponto de vista a realidade colonial não foi sui generis) a Igreja Católica pôs em marcha um conjunto de políticas de vigilância e disciplinamento para salvar os seus ministros da luxúria, a quarta das portas que segundo o célebre Afonso Liguori dava acesso ao Inferno.  

“Marte contra Minerva”, outra obra sua, remete-nos para o germinar das ideias republicanas em Moimenta da Beira até aos nossos dias, com acolhimento preferencial das lutas, debates, polémicas e embates entre republicanos e monárquicos. Porquê a escolha deste título e qual a importância de estudar esses embates no concelho moimentense?

Este livro surgiu da ideia de comemorar o primeiro centenário de um acontecimento decisivo na nossa história, a Implantação da República, nascida do embate entre a guerra sangrenta das armas (Marte) e a guerra diplomática (Minerva). Trata-se de um processo com os seus desatinos, mas que teve o condão de transformar em cidadão o súbdito de antanho. Este livro procurou perceber como se deu essa transição complexa, polémica, cheia de incidências e de onde emergem diversos protagonistas em Moimenta da Beira, um concelho que ao ser constituído sede de círculo eleitoral assumiu protagonismo regional. Para reconstituir toda essa trama política recuei até ao período das invasões francesas no sentido de detetar a germinação e ulterior difusão de determinados ideais revolucionários que moldariam o republicanismo enquanto processo em marcha. Ao contrário do que acontecia no panorama nacional, em Moimenta da Beira esse republicanismo tinha mais obreiros do que teóricos. Apesar de este estudo ter sido inserido num momento comemorativo, o olhar que se encetou sobre essas personagens locais não se destinou, como por vezes erradamente acontece, a crivá-las de sátiras ou incensá-las de louvores, destinou-se apenas a reconstituir e compreender a sua ação. É para isso que serve a História.

Porque estamos a falar de Moimenta da Beira, investigou sobre todos os pelourinhos do concelho e daí nasceu um livro que ficará para a história da Vila. Com este estudo ajudou na reconstrução de uma réplica do pelourinho de Moimenta da Beira, há muito desaparecido. Conte-nos como tudo aconteceu…

Surgiu um convite da autarquia para elaborar um estudo sobre os pelourinhos do concelho, incluindo uma investigação sobre o de Moimenta da Beira, há muito desaparecido e frequentemente confundido com o padrão comemorativo que, nos tempos do Estado Novo, foi erguido no jardim municipal. Visava-se restituir ao povo a memória da existência deste malogrado monumento, desmantelado e vendido na sucessão das lutas liberais. Partindo de leituras gerais previamente elaboradas pelo reverendo monsenhor António Bento da Guia, foram coligidas provas e elaborado um modelo que deu origem à construção de uma réplica gizada por um escultor, posteriormente implantada numa das praças da vila. Não só o local onde se encontra essa réplica não é o original, como não é possível assegurar que o modelo a que se chegou corresponde ao primitivo. Tivemos o cuidado de explicar isso tanto na placa identificativa do monumento, como no livro que o suporta. A sensibilização que se pretendia com esta ação simbólica foi plenamente alcançada e compreendeu a apresentação do livro e inauguração do monumento durante um grande evento realizado pela Câmara Municipal que incluiu feira gastronómica e realização de espetáculo teatral de rua subordinado ao tema da justiça local.

Leciona na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e orienta teses de mestrado na Universidade Federal do Amazonas. O que é que os brasileiros desconhecem da nossa história? E o que é que em Portugal se desconhece do nosso Brasil colonizado?

Desde há muito que as universidades portuguesas ministram formação sobre história do Brasil ao passo que as universidades brasileiras não ensinam a história de Portugal. É um desequilíbrio que não é vantajoso nem para eles nem para nós e que de certa forma corresponde a uma tendência muito forte da cultura portuguesa em se abrir ao exterior sem esperar ou exigir o seu inverso.

A história do Brasil, na atualidade, está manchada de sangue, segundo as notícias que nos chegam diariamente. Que leitura faz das posições de Bolsonaro e da atual situação do Brasil?

Penso que o Brasil vive uma situação de depressão e esgotamento coletivo, fruto de várias décadas à procura de um caminho de paz, prosperidade e progresso, que tem tardado em chegar. A mais dura consequência deste estado de permanente desânimo é, na minha opinião, o tribalismo em que se encontra mergulhada a sociedade. Não existe a capacidade de conviver na diferença, nem a predisposição para o debate sereno com quem tem opiniões contrárias, para o que muito contribui uma comunicação social sensacionalista, redes sociais instrumentalizadas e inundadas de fake news, e instituições de ensino profundamente politizadas. Creio ser ainda precoce uma avaliação ao governo de Bolsonaro. Aquilo que já demonstrou, todavia, não me agrada. Eleito de forma democrática, terá legitimidade para impor o seu estilo de governação que, no final, será submetido aos ditames da soberania popular. O Brasil é um país idílico com fortes potencialidades económicas que esbarram no cancro da corrupção que, ao depauperar o país, provoca desequilíbrios sociais profundos e uma situação pandémica de insegurança. Espero, mas não acredito, que este governo consiga afrontar estes problemas, até porque o que se vê, até agora, é apenas uma política nacionalista conduzida por uma figura que tem passado para dentro e para fora uma imagem de arrogância e prepotência.

A onda de migrantes na Europa não pára de aumentar. Uns veem-se obrigados pelas guerras nos seus países, outros deslocam-se por vontade, procurando liberdade e porventura segurança. Teremos uma nova Europa, social e cultural, dentro de uma década? 

Não é possível prever o futuro mas sabe-se que o mundo se encontra em permanente transformação. Apesar de dramático e complexo, o fenómeno migratório não é uma novidade. Os contactos entre culturas provocaram sempre assimilação e choque. O mundo de hoje é um produto disso. Por vezes a falta de consciência histórica faz encarar o presente como uma ordem virginal que o papão do futuro não deve alterar. A verdade é que o presente é o produto de uma constelação de passados, cujo conhecimento poderá ajudar a lidar melhor com os desafios atuais e vindouros, até porque o movimento migratório tem uma escala mundial e raízes antigas. Porque é que Portugal não poderá ser um país aberto à imigração se o povo português sempre esteve vocacionado para a emigração? Hoje, por exemplo, só não há portugueses em trinta dos cerca de duzentos países existentes no mundo. São resquícios da situação dramática que este país viveu e que só se alterou depois da adesão à então CEE. Sou, por isso, europeísta, e partidário de uma ajuda humanitária sem fronteiras.

in Voz de Lamego, ano 90/07, n.º 4542, 14 de janeiro de 2020

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