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Pe. Miguel Peixoto – Um permanente sinal admirável

Pode parecer um pouco extemporâneo falar sobre a carta apostólica Admirabile signum (As) do Papa Francisco depois do dia 25 de dezembro e, de facto, é se nos fixarmos uma dimensão meramente cronológica da nossa realidade. Contudo, enquanto crentes olhamos para a representação da natividade de Jesus e nela vemos a possibilidade de aprofundar o mistério da incarnação do Verbo de Deus, associando-nos ao gesto do Santo Padre, quando tornou pública mais uma das suas reflexões, desta vez sobre o significado e valor do Presépio.

O tempo e o espaço ganham, assim, uma outra dimensão quando os percebemos numa perspetiva kairológica, pois, o aqui e agora da nossa vida passam a ser um oportuno momento único, porque envolvidos pela presença de Deus. Se Deus sempre esteve presente na história da humanidade, a sua presença torna-se incarnada no nascimento de Jesus, mostrando-nos, com a nossa própria carne, que Deus não é uma ilusão ou uma fábula, mas ser real que, mesmo existindo desde sempre, quis incarnar na nossa realidade.

É, na verdade, no contexto da incarnação do Verbo que devemos ler a carta Admirabile signum, compreendendo que a sua representação, no presépio, se torna “como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura” (As 1).

O presépio torna-se sinal admirável, não só porque continua a suscitar a admiração de quem o contempla, mas porque nos guia na contemplação do mistério em que uma das pessoas do único Deus, o Filho, continua em tudo a ser Deus na fragilidade e simplicidade de uma criança, de um ser humano e comove-nos porque manifesta a ternura de Deus.

Assim, o presépio, cuja etimologia se encontra na palavra latina praesepium que em português significa manjedoura (As 2), deve ser muito mais do que um exercício de mera criatividade ao longo da sua preparação, para se tornar num profundo exercício de teologia.

O Papa Francisco lembra que S. Francisco de Assis quando preparou o primeiro presépio em Gréccio, em 1223, iniciou um movimento evangelizador, que permitiu, e continua a permitir, ler um conjunto de sinais à luz da mensagem do Evangelho. Entre esses sinais está a estrela (As 4), que guia os Magos durante as trevas da noite, representando a esperança da presença de Deus nas nossas vidas que nos guia, apesar das dificuldades (trevas) que afloram na nossa vida.

A disponibilidade para avançar é também contemplada como sinal, baseada na ação dos pastores que deixaram a sua rotina para irem ver tudo o “que o Senhor deu a conhecer” (AS 5). A disponibilidade é o oposto do imobilismo que impede a conversão e a procura da presença de Deus na nossa vida. Se os pastores continuassem toda a noite na segurança do lugar onde estavam a pernoitar, não contemplariam o Senhor que veio ao encontro de todos e não seriam capazes de discernir se o que o próprio Senhor lhes anunciara, por meio dos anjos, era verdade.

É interessante ver, ao mesmo tempo, a figura dos pobres e dos simples junto da gruta onde o Verbo se fez carne, porque estas personagens anónimas, lembram aqueles que anonimamente vivem o seu dia a dia nas periferias da sociedade. Todavia, a sua presença manifesta “que Deus se fez homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade” (As 6).

O presépio é, como a vida, um caminho que nos leva a Jesus. Nesse caminho encontramos aqueles, Maria e José, que no seu sim viveram para cumprir radicalmente o projeto que Deus tinha para eles e, por isso, se tornaram modelos de quem escuta a palavra de Deus e a coloca em prática (As 7). Para além disso, José e Maria também nos ensinam que o seu Filho, tal como qualquer outra criança, não é uma propriedade exclusiva, pelo que, no presépio, Jesus se encontra acessível a todos, realidade que não exclui a responsabilidade, mas pelo contrário, a amplia exponencialmente.

Assim, chegamos a Esse que é o centro de todo o presépio, e se nos apresenta “num menino para fazer-se acolher nos nossos braços” (As 8). A alegria de acolher na nossa vida o menino Deus, transforma-nos e impele-nos a abrir o coração para o outro, pois quem acolhe o Filho de Deus não pode permanecer indiferente a quem se encontra diante de si. É assim que este menino no presépio continua não só a encantar, mas a provocar.

Quase a terminar a sua carta apostólica, o Papa Francisco indica que os Magos, homens sábios porque estavam atentos aos sinais, colocaram-se a caminho seguindo a estrela (As 9). Estes Magos que representam a universalidade da mensagem de Jesus, ensinam-nos também que se pode partir de muito longe para chegar até junto de Jesus, realidade que a todos deve envolver para aproximar aqueles que procuram a verdade, mas que andam tão distantes da Verdade.

É assim que “o presépio narra o amor de Deus, o Deus que se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano” (As 10), pelo que se torna tão importante continuar a construir o presépio e a fazer dele um suave e exigente processo de transmissão da fé para todos.

Assim, ainda que cronologicamente o tempo de Natal esteja a terminar, que a contemplação daquele que nasceu em Belém nos ajude a viver kairologicamente segundo a categoria de amor, em todo o tempo e espaço, pois Ele continua, permanentemente, a ser referência, porque o seu poder não reside na força, mas na sua fragilidade e simplicidade revelando o amor que tem por nós.

in Voz de Lamego, ano 90/07, n.º 4542, 14 de janeiro de 2020

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