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ESCLEROCARDIA – HUMILDE | Editorial Voz de Lamego | 13/02/2018

ESCLEROCARDIA – HUMILDE

Amanhã iniciamos o tempo litúrgico da Quaresma, durante a qual a Igreja dedica particular atenção ao arrependimento, convidando a enfrentar a “esclerocardia”, a dureza de coração ou incapacidade de nos arrependermos, tendo como finalidade última a conversão. Como alguém escreveu, “ninguém pode ser grande sem tomar consciência da sua miséria”.

E anunciar um tempo de arrependimento é mais do que um convite às lágrimas diante do mal feito; significa anunciar uma esperança: o mal não vencerá, o homem é maior que o seu pecado.

Diante da certeza de que é amado e destinado a algo grandioso, embora consciente dos limites que o acompanham e da impossibilidade de chegar à meta apenas com as próprias forças, o homem é convidado a protagonizar a humildade, a aceitar-se pequeno e a acolher o perdão de Deus.

A humildade, indispensável ao arrependimento, não pode entender-se como autodesprezo, mas como a serena aceitação de que somos pó, frágeis e limitados, mas que, apesar de tudo, somos amados e salvos.

A Quaresma surge, então, como a oportunidade para assumir que não existe mal irreversível, que não existe culpa imperdoável. Para isso, o arrependimento é fundamental, fruto de uma culpa responsavelmente assumida e da tomada de consciência do amor do Pai. Um amor que perdoa e restabelece a relação afectada pelo pecado, conduzindo à salvação. E esta é a boa nova do Evangelho: Deus é Pai e liberta-nos do sentimento de culpa.

Animados pela esperança que o amor do Pai nos concede e humildemente arrependidos, somos convidados a avançar e a mudar. Porque, como nos disse D. António Couto na recolecção da última sexta-feira, não basta acreditar que é possível ser melhor, é preciso que tal se concretize.

A Quaresma serve para nos recordar que o mal pode ser vencido.

in Voz de Lamego, ano 88/11, n.º 4448, 13 de fevereiro de 2018