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Encontro de Padres em Freixo de Numão

Nasci em Moçambique onde vivi até aos três anos. Depois vim para Torres Novas onde cresci até aos 18 anos. Vivi a partir daí principalmente em Lisboa até que fui para a tropa… e a tropa levou-me para a guerra em Angola onde estive mais de dois anos (quem me conhece minimamente talvez possa imaginar até que ponto foi violento para mim viver rodeado de guerra, talvez). Foi uma experiência tão violenta e dolorosa como enriquecedora (talvez seja numa mistura semelhante que vamos conseguindo aprender alguma coisa sobre o mistério que é a vida humana, talvez). Após essa experiência mergulho noutra vivência tão radical e desafiadora. Aproximo-me da Obra do Padre Américo, concretamente do Calvário. Não tenho qualquer dificuldade em afirmar que a Obra da Rua era um dos lugares da Igreja de Portugal onde se procurava, de uma forma que direi absoluta, cumprir a excelência da Mensagem Cristã: tratar dos mais desprotegidos é tal e qual como tratar do próprio Cristo.

E foi depois de muitas contradições, depois de experimentar um enorme conforto e de ter vivido desafios que me obrigaram a tocar em muitos dos meus limites que eu chego ao Seminário de Lamego.

Vou tentar explicar o que senti ao chegar ao Seminário de Lamego: a palavra que me surge é “OÁSIS”. Encontrei um castelo de espessas paredes de pedra onde a principal actividade era uma “Academia de BEM”. Não falo em perfeição porque a perfeição não é própria dos humanos, falo de “BEM” porque o bem pode conviver com a fragilidade, com os limites e até, porque não, com alguns erros. A sensação que tive ao chegar ao Seminário manteve-se até hoje. Não sei se é correcta a minha expressão “Academia do BEM”, mas, há pouco, um episódio que vivi veio confirmar esta minha expressão. Há poucos dias fui com o Pe. Moura participar no casamento de um nosso paroquiano ao Bom Jesus de Braga. Lá chegados, encontrámos dois sacerdotes de Braga que nos perguntaram de onde éramos. Dissemos Lamego. Foi uma palavra mágica. Os dois sacerdotes lembrando-se de passar pela sua diocese dos nossos D. Jacinto e D. António Francisco, passagem que os tinha encantado, acharam que nós hipoteticamente teríamos qualidade semelhante e passaram a acolher-nos com o maior afeto.

Ora acontece que D. Jacinto e D. António Francisco são eles próprios filhos do nosso Seminário ou, dizendo melhor, são filhos e pais, porque além de se terem sentado nas carteiras das suas aulas, também, ambos, foram seus vice-reitores. Os dois, na minha opinião, são a personificação da ACADEMIA DO BEM. Tudo se vai arrumando no meu espírito.

Bem, chegou a altura de eu explicar a razão porque trago aqui este texto.

Foi-me pedido que fizesse uma crónica sobre um encontro dos Padres do Arciprestado a que eu pertenço. Crónica que eu escrevo de uma forma subjectiva e não saberia escrever sem antes dizer alguma coisa sobre a importância que o Clero de Lamego tem para mim. Então vamos à crónica:

No dia 2 de Dezembro os Padres do Arciprestado que compreende os Concelhos de Foz Côa, Meda, Penedono e S. João da Pesqueira reuniram-se na Paróquia de Freixo de Numão. Quase todos presentes… os poucos ausentes justificaram a sua ausência ou por motivos de saúde, ou motivo de trabalho.

Durante a tarde, os Padres participantes visitaram alguns lugares da Paróquia, entre eles o Museu, a Adega Cooperativa e sobretudo a Unidade de Cuidados Intensivos que pela sua dimensão e pela complexidade da sua missão pede ao seu director, o Pe. Ponciano, pároco de Freixo, a maior obrigação e generosidade. Outro momento fundamental deste encontro foi a concelebração aberta à comunidade do Freixo com a presença de um razoável número de leigos que receberam um testemunho de paz, harmonia e simplicidade. Foi um momento simples e,  talvez por isso, sublime.

Falta-me falar do jantar que foi oferecido a todos pelo Pe. Ponciano com a colaboração de alguns dos seus Paroquianos. Momento “Feliz”.

Vou ainda falar da qualidade espiritual que encontrei neste encontro. Limito-me a dois aspectos.

1.º – Havia no ar um ambiente de fraternidade. Ninguém se sentindo mais importante que ninguém. Sentindo-me tão bem acompanhado, lembrei-me que sempre dei a maior importância à fraternidade sacerdotal. Para explicar essa importância vou contar uma ideia que povoa muitas vezes o meu pensamento: Penso que todos os domingos de manhã saio da minha casa e dirijo-me às Comunidades Paroquiais onde vou celebrar a Eucaristia. A dado momento, na homilia, eu tenho que partilhar com os meus paroquianos a minha própria oração, a minha própria procura da beleza da mensagem cristã (aliás beleza nunca totalmente encontrada e por isso continuamente procurada). Quando estou nesta actividade lembro-me (muitas vezes) que, sensivelmente à mesma hora, todos os outros padres saem das suas casas e também vão dar aos seus paroquianos o melhor dos seus pensamentos. Somos de tal maneira iguais na missão que temos em comum que essa igualdade nos garante uma muito especial fraternidade.

2.º Durante todo o encontro não senti o mais leve laivo de “Má Lingua” Para quem achar isso irrelevante, eu tenho que explicar que desde a minha juventude eu lido extremamente mal com o falar mal sobre os outros, (falando melhor, acho que não foi na minha juventude mas na minha infância, algo que tem um sabor a instinto). Enquanto pensava nisto tudo e no Encontro de que estou a falar o Papa Francisco veio dar-me uma ajuda preciosa. Eu pensava que a “Má Língua” era um “Tumor Maligno” nas relações humanas. Papa Francisco, de uma forma muito mais inspirada, disse que esse procedimento é um acto de “Terrorismo”. Assim fiquei convencido de que tenho alguma razão quando penso que não dizer, nem facilmente pensar mal dos outros, é a compreensão excelente da mensagem cristã.

Pe. Abel de Sá Pires, in Voz de Lamego, ano 87/55, n.º 4441, 19 de dezembro de 2017

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