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Picão – Natureza, História e Memórias do Montemuro

Entre o Montemuro e o Paiva

Corria o ano de 1961. Três seminaristas tinham recebido o Sacerdócio no dia 15 de Agosto e cada um se dispôs a «ir» à Missa Nova dos outros dois. Assim fui a Picão no dia 22 desse mês; era o dia da Missa Nova do Pe. João André.

De Picão todos falávamos então, como se fazia de outras terras; mas as «outras» não tinham sido descritas num romance, que não mencionava o nome de Picão, mas assim se anunciara e assim apareceu, romance que eu comprei logo que ele chegou à Gráfica, como dizíamos naquele tempo.

Mas nesse dia começava o nosso retiro de preparação para o Diaconado e não se podia ler tal «Breviário», nesses dias. Só que viram-me a arrumar o livro, foram à carteira e, no fim do retiro, já quatro ou cinco o tinham lido, às escondidas dos prefeitos de estudo, que não gostavam dessa leitura fora do dia e hora própria para tal.

Picão voltou à pacatez da sua vida, onde tudo decorria entre as altas penedias do Montemuro e as águas límpidas do rio Paiva. Ver a aldeia era impossível, olhando das margens do rio e na impossibilidade de subir ao alto da serra, o que quer dizer que, em grupo, fomos a corta-mato e assim regressei, agora acompanhado por um, creio, agente da PSP, em Lamego, e que supria a falta de caminhos pelo conhecimento destes lugares da sua origem.

Agora, já não! Picão está diferente, tem outro livro, que conta outras «histórias», descreve paisagens, ensina o que é a serra com as suas penedias, passa pelo 25/4, inclui palavras e crónicas de vários autores, não esquece o Bugalhão, tem fotografias, mostra os naturais e os sempre residentes, sem esquecer os que dali partiram para outras zonas do País e também se aventuraram em terras da estranja, Brasil, primeiro, e Europa, depois.

Pilar Dias, a autora/coordenadora do livro, é sobrinha do Pe. João André; ilustrada como o tio, enche páginas com o seu saber, soube chamar alguns colaboradores para temas que enriquecem o livro e mostram Picão na sua mudança geográfico-histórica. A sua localização é a mesma, mas quem desce das Portas do Montemuro não deixa de se extasiar ao ver uns telhados vermelhos no meio do verde da encosta; é Picão que recebe os seus visitantes ou simples «mirones», percorrendo agora uma boa estrada, e até é capaz de matar a fome a quem passa à hora do almoço e é bem servido em dois restaurantes, ali à beira da estrada.

A sua igreja reflecte a ordem que o Pe. João André mostra na sua vida; invejo o meu amigo e condiscípulo nessa ordem e admiro a simplicidade com que retrata a palavra de sua mãe sobre o seu ser de pároco, nunca nomeado, mas sempre atento ao que se passa no plano eclesial.

Esquecendo uma antiga recomendação, não levava a máquina fotográfica e no telemóvel só trouxe a porta do sacrário, quando o que eu ali mais e melhor conhecia era o grupo das nove «irmãs», santas, que bem mereciam ter já tido lugar numa das exposições no Museu Diocesano de Arte Sacra.

Falar de um livro é entrar na vida de um povo, uma comunidade, este ou aquela que se aventurou na sua publicação. Assim foi com o romance «Luz na Montanha», do Pe. Rodrigues da Cunha, «Da minha Janela», do Pe. João André e, agora, com «Picão – Natureza, História e Memórias do Montemuro», de Pilar Dias.

Rodrigues da Cunha já faleceu, mas João André e Pilar Dias ainda vivem para colocar Picão no lugar a que tem direito na paisagem do Montemuro, na história dos seus povos, na vida dos que teimam em não deixar a sua terra ou, pelo menos a ela vêm matar saudades, enriquecer a sua cultura e dar a conhecer o que as aldeias serranas ou ribeirinhas têm para mostrar da e na vida que, passando pelo «nada» do dia-a-dia, se tornam e tornam os outros mais ricos na história das nossas terras.

Parabéns, João André, parabéns, Pilar Dias, não vos doam os dedos nem seque a esferográfica para continuar a mostrar Picão a quem passa, o Montemuro a quem o atravessa ou quer visitar. E que as migalhas de cada livro sirvam a riqueza que o Centro Paroquial vai proporcionar a todas as gerações do presente e do futuro de Picão.

 

Pe. Armando Ribeiro, in Voz de Lamego, ano 87/45, n.º 4430, 3 de outubro 2017

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