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Archive for 20/09/2017

D. António Francisco dos Santos | Pastor à imagem de Cristo

A Sé do Porto foi pequena para acolher a multidão que quis participar nas solenes exéquias do bispo daquela diocese, D. António Francisco dos Santos, no dia 13 deste mês. Para lá dos muitos fiéis da nossa diocese, ali estiveram várias dezenas de sacerdotes do nosso presbitério, bem como D. António Couto e D. Jacinto Botelho.

No final da cerimónia, já sem paramentos, quando passávamos por entre a multidão aglomerada no adro da Sé do Porto, uma senhora dizia: “Fizeram bem em usar cores brancas. Ele era um santo!” E outros comentários se puderam ouvir, provindos daquela gente anónima que não arredou pé e foi ficando para agradecer a vida e a missão do Pastor que viam partir tão precocemente.

A Sé abriu as portas às 14h e logo os seus bancos se encheram com representantes de instituições diversas, centenas de sacerdotes vindos de várias dioceses, diáconos, seminaristas, grupo coral… Perto do altar lá se encontrava a urna com os restos mortais deste nosso ilustre conterrâneo, ladeada por familiares. O coro e a orquestra ultimavam os preparativos e logo se ouviram trechos do “Requiem”, de Mozart. Vários ecrãs, dentro e fora da Sé, possibilitavam visualizar e acompanhar as cerimónias que começaram à hora prevista, 15h, não sem antes vermos entrar o Presidente da República, o Primeiro Ministro, alguns líderes partidários, deputados e outros intervenientes na vida nacional e local.

Em cortejo entraram também os bispos portugueses, visivelmente tristes e marcados pelo acontecimento, a que se juntou o Núncio Apostólico. Mas ficou também a aparente imagem de um episcopado envelhecido e cansado. A este propósito, não deixará de ser oportuno reler algumas das afirmações do nosso Presidente da Conferência Episcopal, D. Manuel Clemente, proferidas durante a homilia (que publicamos neste jornal), nomeadamente para sublinhar o excesso de trabalho e as muitas preocupações que cercam e habitam os bispos, ao mesmo tempo que referia a ausência de estruturas intermédias que os preservem. Palavras motivadas, talvez, pelo exemplo de vida pastoral de D. António Francisco dos Santos, que se doou até ao limite das suas forças.

No final da celebração, todos saíram da Sé e a urna foi transportada para a entrada. A multidão saudou a memória do bispo do Porto com uma grande e sentida salva de palmas, a que se seguiu a oração final do ritual das exéquias. Muitos foram os que quiseram passar, depois, junto da urna ou deixar algo escrito no livro exposto para o efeito.

Os restos mortais de D. António Francisco dos Santos vão ficar sepultados na capela de S. Vicente, na Sé do Porto, a exemplo de outros bispos. Uns dias antes da sua morte, naquela mesma capela, quando guiava pela Sé um grupo de formadores dos Seminários portugueses, disse: “Aqui estão sepultados alguns dos bispos que serviram esta diocese; não sabemos quem será o próximo”!

Ele não sabia, mas Deus já o tinha escolhido.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/43, n.º 4428, 19 de setembro 2017

GRATIDÃO E BONDADE | Editorial Voz de Lamego | 19.setembro.2017

A morte de D. António Francisco dos Santos marcou estes últimos dias. Quando a edição da Voz de Lamego da semana passada já estava em andamento, a notícia da morte do Bispo do Porto, natural da nossa diocese, veio alterar a composição do mesmo. Uma semana depois é possível a recolha de muitos outros testemunhos, a começar pelo Editorial, do Pe. Joaquim Dionísio, Diretor da Voz de Lamego e o atual Reitor do Seminário Maior de Lamego:

GRATIDÃO E BONDADE

A morte privou-nos da presença, da palavra e do saber de D. António Francisco dos Santos, falecido aos 69 anos. Nas horas que se seguiram à fatídica e inesperada notícia, foram muitos os que partilharam e expressaram gratidão pelo muito que fez por onde passou, deixando elogios à bondade, disponibilidade e sabedoria com que estava, liderava e acompanhava.

Em pouco mais de três anos, os diocesanos do Porto puderam aperceber-se das suas qualidades e deixaram-se cativar pelo seu exemplo. Uma missão exigente que assumiu por obediência à Igreja e que cumpriu com distinção, até ao limite das suas forças.

Inicialmente, talvez a nomeação deste bispo, discreto e mediaticamente pouco reconhecido, tenha surpreendido muitos diocesanos portuenses, mas, rapidamente, a sua forma de ser e de estar mostrou ter sido uma escolha acertada. Tal como ficou devidamente ilustrado na celebração exequial, com a presença de milhares de pessoas, centenas de sacerdotes e dezenas de bispos, a que se associaram as mais altas figuras do Estado.

A nossa diocese também sofre com a sua partida. Aqui caminhou e amadureceu a sua vocação sacerdotal; aqui foi ordenado e daqui partiu para servir a Igreja. Aqui regressava, de quando em vez, sempre a correr, para participar em alguma celebração ou partilhar momentos com os amigos que granjeou e não esqueceu.

Enquanto formador no Seminário Maior e Pró-Vigário Geral da diocese marcou uma geração de padres do nosso presbitério: pela forma como ensinava e motivava, pela atenção amiga com que ouvia, pela serenidade com que dialogava e pela sabedoria com que aconselhava. E, com alegria e saudável regozijo, sempre o acompanhámos, de perto e de longe, na sua missão episcopal.

A Igreja perdeu um pastor, Lamego um dos seus ilustres filhos e muitos de nós um amigo. Resta a gratidão diante da sua memória e a vontade de imitar a sua bondade.

in Voz de Lamego, ano 87/43, n.º 4428, 19 de setembro 2017