DIA DA MULHER

Celebrou-se esta semana mais um Dia da Mulher; dos imensos “dias de tudo” que existem, este ainda merece alguma atenção – não pelos jantares, pela distribuição indiscriminada de flores e bombons ou pelos descontos “especiais” do comércio, mas porque, efetivamente, ainda não há igualdade de oportunidades entre os dois sexos. E é a isto que o importante se resume!

Tendo tido início numa tragédia, penso que poucos se lembrarão hoje em dia como começou o dia 8 de Março a ser associado ás Mulheres.

Na América industrial, nos primórdios do trabalho feminino em áreas consideradas masculinas, um grupo de mulheres tentou manifestar-se pela igualdade de salários e condições de trabalho em relação aos seus colegas homens, recusando-se a abandonar as instalações da fábrica e boicotando o seu funcionamento.

Tal “atrevimento” foi castigado severamente e da forma mais cruel – o patrão, com a conivência das autoridades, mandou incendiar o local onde se encontravam para que servissem de exemplo a quem mais ousasse pedir igualdades inaceitáveis !

Todas morreram queimadas…

Ainda hoje, tanto tempo depois, não há oportunidades iguais em muitos setores – em demasiados, diria!

Muitas mulheres continuam a receber menos por trabalho igual; a trabalhar mais horas; a ser discriminadas por engravidarem e darem à luz; a não progredirem na carreira porque homens menos competentes as ultrapassam; a serem sobrecarregadas com o trabalho doméstico depois duma jornada laboral; a serem cuidadoras únicas de crianças e idosos; a terem que se sentir agradecidas porque “ele até ajuda lá em casa”; a serem as principais vítimas de assédio, violência, tráfico e agressões de todo o tipo; e muitas, muitas mais discriminações, nesta parte do mundo dito civilizado.

E se no nosso país a vida de uma Mulher pode ser considerada boa, com direito a educação e saúde ( algo inacessível em muitos países do mundo ), ainda há muito que fazer.

Ainda se confunde a exigência de oportunidades e direitos iguais com educação – a elegância dum cavalheiro que abre a porta à senhora ou que se levanta quando ela entra na sala, comparável à gentileza da senhora que cede a cadeira ao idoso ou que lhe serve o chá, tem a ver com educação e nada com “igualdades bacocas” de quem não se sabe comportar.

A verdadeira igualdade não está nessas atitudes, mas chegará no dia em que as mulheres que vi nos jantares desta semana não tenham que deixar o jantar pronto para o marido antes de sair, não tenham que deixar os filhos à mãe porque o pai não se encarrega deles, não tenham que passar o domingo a passar roupa a ferro enquanto ele vai ao futebol, não tenham que fazer que não ouvem os comentários do patrão para não porem o emprego em risco, e tantas, tantas outras coisas que aceitam porque “é assim”.

Quando esse dia chegar, não haverá Dia da Mulher, mas só Dias dos Seres Humanos.

I.M., in Voz de Lamego, ano 87/18, n.º 4403, 14 de março de 2017

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