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Retiro do Clero: caminhar no Espírito e avançar na esperança

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Entre os dias 26 (jantar) e 29 (almoço) de dezembro último, o clero de Lamego teve oportunidade de viver o seu retiro espiritual anual. Os quase quarenta participantes foram acolhidos nas instalações da Obra Kolping, em Lamego, e tiveram como Orientador o Padre Adelino Ascenso, actual Superior Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova. De destacar, no grupo dos participantes, a presença de dois sacerdotes da diocese da Guarda e dois da diocese de Bragança-Miranda. Na Eucaristia do último dia, presidida por D. António Couto, lembrámos os sacerdotes falecidos, em particular os deste ano.

Desde há alguns anos que são propostos os dias a seguir ao Natal para a vivência, entre nós, do retiro anual para o clero. Os participantes andam, habitualmente, pelas três dezenas. Mas outros há que vivem o seu retiro anual noutros locais e em datas que lhes são mais propícias.

O orientador deste ano, Pe. Adelino Ascenso, é membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, da qual faz parte também o nosso bispo, e viveu alguns anos de missão por terras do Japão. E foi durante a XII Assembleia daquele instituto missionário que, em Julho de 2014, foi eleito Superior Geral.

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Narrativa com Imaginação

As comunicações do Pe. Adelino foram densas, fruto da profundidade espiritual que o habita e da experiência humana e missionária que já leva. Num tom sereno e coloquial, as palavras são cuidadosamente escolhidas para não serem supérfluas e devidamente encadeadas para imprimirem ritmo.

Desde o primeiro momento, convida cada um a confrontar-se com a sua narrativa e a assumir o protagonismo da mesma, numa atitude introspectiva de quem entra em si mesmo e se deixa interpelar pelo silêncio. Quais discípulos a caminho de Emaús, a nossa fé é fortalecida pela narração do que aconteceu e é levada a narrar aos outros Aquele que identificamos e reconhecemos na Palavra e no Pão. O ouvinte transforma-se em narrador, assumindo o encargo de continuar a missão.

Nos tempos que são os nossos, viver a missão com fé exige disponibilidade e entrega, mas também muita imaginação, já que “o coração é mais tocado pela imaginação do que pela razão”. A linguagem estética permite aproximar de Deus, atendendo a que “a fé não é uma teoria, mas um evento; não uma fria verdade, mas um drama”.

Por isso, talvez a crise de que tanto se fala em ambiente eclesiástico, seja mais na imaginação (não confundir com fantasia) do que na razão. A imaginação é um caminho específico de experiencia da realidade, que exige a atenção do sujeito e possibilita um caminho onde o indizível se pode dizer.

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O silêncio questiona

Alguns dos ensinamentos partilhados pelo conferencista foram fruto do seu trabalho académico sobre um célebre escritor japonês, Shusaku Endo (1923-1996), e, em particular, do livro “Silêncio”, base de um filme que estreia por estes dias. A obra, cuja acção decorre no século XVII, conta-nos a história de um missionário português envolvido na aventura espiritual da conversão dos povos orientais, o qual acaba por apostatar, após ter sido sujeito às mais abomináveis pressões das autoridades japonesas, para evitar que um grupo de fiéis seja torturado até à morte. Uma fascinante introspecção que questiona o silêncio de Deus perante a agonia dos que nele crêem.

O aparente silêncio de Deus questiona a fé, abre as portas à dúvida e pode afastar o crente (a fé é constituída por 90% de dúvidas e 10% de esperança, dizia G. Bernanos). Mas pode também purificar a fé, livrar da imagem de um “Cristo triunfalista” e levar o crente a descobrir um Deus silencioso que não livra do sofrimento, mas que salva no sofrimento (D. Bonhoeffer)  e que acompanha, com compaixão maternal.

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Grãos de areia

No último dia, o Pe. Adelino alertou para alguns “grãos de areia” que podem condicionar a caminhada e partilhou a sua visão sobre realidades que importa ter em conta na vivência da fé e da missão.

A esse propósito, falou do “perigo da falta de alma” que pode atingir o sacerdote imerso num corre-corre constante que o pode induzir a sentir-se indispensável e insubstituível. Onde está a alma daquilo que se faz? Importa parar, “descalçar as sandálias do supérfluo”, assumir a fragilidade e dar lugar à graça de Deus, adquirindo imunidade face às ciladas do orgulho.

Depois, e citando o Papa Francisco, alertou para o perigo do individualismo e da autoreferencialidade. Nem sempre o mais fácil e cómodo é a melhor escolha, já que podem resultar da resistência à mudança e não ter em conta o outro.

Outro grão de areia poderá ter por causa um certo “entorpecimento da paixão”. Neste caso, será o calculismo a marcar o ritmo, a colocar constantemente um “se” ou um “mas”. Tais realidades condicionam o compromisso e impõem condições ao amor e à entrega. Contudo, “um amor que impõe condições, ainda não amadureceu”. Ser consagrado, ministro ordenado, é estar preparado e disponível para o excesso, já que o Senhor não se contenta com menos e a indiferença não leva à conversão.

Uma outra situação denunciada foi o “medo de olhar em profundidade”, a falta de coragem para avançar ou a tentação da falta de esperança. Também aqui, o padre só será um grande narrador se se disponibilizar para se unir à história narrada. O verdadeiro encontro exige sair de si, despojar-se e esvaziar-se (kenosis) para dar lugar ao outro. Às vezes estamos tão cheios que não entra mais nada, correndo o risco de “assumir o trono de Deus” (T. Halik).

Por fim, e depois de desafiar para a “internacionalidade e a interculturalidade”, falou ainda de uma “espiritualidade da ousadia e do risco”. Caminhar no Espírito é avançar na esperança e sair das fronteiras que nos são próximas; às vezes tão próximas que nem as vemos! Não pode haver medos nos olhos de quem se assume como “bom samaritano” e deseja libertar-se do torpor do calculismo excessivo.

E concluiu com uma citação da EG: “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser se não me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar” (n.º 273).

JD, in Voz de Lamego, ano 87/08, n.º 4393, 3 de janeiro de 2017

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