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Homenagem ao Pe. Joaquim Mendes de Castro…

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Como é sabido de todos, no último dia 22 de Dezembro, deixou o nosso convívio terreno o grande professor e excelente amigo, Cónego Dr. Mendes de Castro.

Não pude estar presente no seu funeral, como era meu desejo. Tendo sido encarregado pela Senhora Presidente da Academia da História de representar no ato a mesma Academia, não o pude fazer por ter sofrido um problema de saúde que me impediu de deslocar-me então a Rio Tinto. Ao Sr. Dr. Mendes de Castro e à senhora Presidente da Academia, peço perdão da minha falta.

O distinto falecido sempre foi considerado por mim,e por todos os que lidaram com ele, um dos mais ilustres membros do clero da diocese, um dos mais distintos capitulares da nossa Sé, um dos mais brilhantes professores do seminário, e um dos maiores e melhores expoentes das letras e da cultura portuguesas.

Bem conhecido na diocese, não demorou a ser reconhecido no país.

Quando, em Outubro de 1967, foi criada em Lisboa a Universidade Católica e foi preciso recrutarno país os necessários professores, logo vieram a Lamego requisitar os seus serviços e, em 3 de Fevereiro de 1999, foi a própria Academia Portuguesa da História a reconhecer os seus méritos e a admiti-lo como seu sócio correspondente. No BOLETIM anual publicado pela Academia e distribuído por todos os seus membros, numa lista alfabética dos académicos de todo o mundo, vem o seu nome com o nº 198, tendo eu a honra e o privilégio de ter o meu nome logo chegado ao dele, com o nº 197.

Além de professor distinto, ele foi também um escritor de mérito.

Entre os títulos publicados, destaco: “D. Jerónimo Osório, tradutor da Ilíada”; “Laudes de Nossa Senhora”; “ Na Escola da Vida”; “Lides da Pena e do Púlpito”; “O Livro dos Salmos”; “ O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”; “Bíblia de Lamego (versão medieval inédita dum códice descoberto pelo autor); “Contos do Natal”; “Samuel Usque e o seu contributo para a versão portuguesa da Bíblia”,  obra premiada pela Academia Portuguesa da História no concurso de 2001;“S. Paulo, síntese da sua vida e obra”; “ A Casa do Poço”; “ O Humanista Lamecense Jerónimo Cardoso”;  e “Santa Mafalda, história e  devoção”.

Educado numa família boa e simples de Arouca (Moldes e Alvarenga), instruído nos seminários de Lamego e formado numa Universidade de Roma, onde brilhou e deu nas vistas, ele foi no seminário e na cidade, ao longo de muitos anos, uma luz que brilhava e refulgia, não só com a sua sabedoria, mas também com a sua bondade e simpatia naturais.

Recordo-o como nosso professor de “Sagrada Escritura”, aproximar-se da sala de aula, de batina e viatório, alto, distinto, no inverno com uma boina moscovita, sentar-se na cátedra sempre acolhedor e amigo, e, sem livro ou caderno algum, repetir textos enormes da Bíblia, em grego, em hebraico e em latim. E, sendo assim tão sábio, e vendo que nós não o conseguíamos acompanhar, ajudava-nos tanto que, sub-repticiamente para não dar nas vistas, nos dava umas “dicas” tão preciosas que nos permitiam “adivinhar e calcular” o tema ou o assunto em que iríamos prestar provas nos exames.

Termino por contar o que muito me encantou, já mais tarde, quando publiquei o meu primeiro romance. Não me julgando digno sequer de merecer a sua atenção, ele pediu-me o romance, passou uma noite de retiro na Casa de S. José a ler o livro, com cerca de trezentas páginas, e, demanhã, na hora do café, agarrou-me o braço, e disse-me em surdina:

– Sabe? Não dormi nada esta noite!

– Passou mal, de saúde? – perguntei.

– Nada disso! Comecei a ler o seu romance e gostei tanto que não consegui deixá-lo em meio. Queria saber como iria acabar a história. E, tudo bem. Só lhe digo uma coisa: – Não devia ter matado a menina Rosália tão cedo. Ela não merecia morrer assim.

Compreende-se como fiquei então feliz, ao ouvir uma crítica destas, e vinda de quem a mesma vinha.

Obrigado, senhor Professor, pela sua amizade e pela sua bondade e simpatia.

Pe. Joaquim Correia Duarte

in Voz de Lamego, ano 87/08, n.º 4393, 3 de janeiro de 2017

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