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Santa Maria Mãe de Deus | Homilia de D. António | 1 de janeiro de 2017

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MARIA, A SENHORA DESTE DIA

  1. Amados irmãos e irmãs. Aqui estamos, oito dias depois do Natal do Senhor e ainda alumiados por aquela Luz intensa e aquecidos por aquele Lume novo, a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a quem dedicamos o Primeiro Dia do Novo Ano Civil de 2017. Este luminoso Dia, primeiro de janeiro e do ano inteiro, que dedicamos a Santa Maria, Mãe de Deus, é também o tradicional Dia de «Ano Bom», a que anda associado, desde 1968, o Dia Mundial da Paz.
  1. Portanto, contas acertadas, este é já o 50.º Dia Mundial da Paz, e a figura que enche este Dia, e que é a causa da nossa Alegria, é a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, no ano 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

  1. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus mandou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Nesta linha breve e densa aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.
  1. Sim, amados irmãos e irmãs, é de Deus que nos vem o Verbo feito carne, e tudo o que a Ele diz respeito, pois foi d’Ele que falaram os Profetas, é d’Ele que falam os pastores, é d’Ele que falam Simeão e Ana e todos os Apóstolos, e tem de ser d’Ele que falamos nós também, a exemplo de Maria, a Senhora deste Dia, que guardava e compunha no seu coração filial e maternal, com carinhosa atenção e desvelo, como quem guarda um tesouro ou uma coisa preciosa, como quem compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa melodia, e a conjugar novos acordes de alegria (cf. Lucas 2,16-21).
  1. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Beato Papa Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 50.º Dia Mundial da Paz que se celebra, e o Papa Francisco apôs-lhe o tema «A não-violência: o estilo da política para a paz». O tema é imenso, e atinge-nos a todos em cheio, homens e mulheres de boa vontade, pois todos estamos imersos no lodaçal da indiferença, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sombrio. Na verdade, nesta «noite do mundo», de um mundo à deriva e sem horizontes, em que vale tudo e tudo vale o mesmo, parecemo-nos todos cada vez mais com náufragos entretidos, apenas entretidos, a construir, com os restos do navio desconstruído, uma jangada que nos permita sobreviver por algum tempo, apenas por algum tempo, insonso e insensato, sem amor, nem dor, nem alegria.
  1. Num mundo assim, impõe-se-nos abrir os olhos, dar asas aos nossos sonhos belos, dar as mãos e ter a coragem de recomeçar a amar, como Maria, a Senhora deste Dia. Que não nos fechemos no mundo egocêntrico, egolátrico e autorreferencial da hipertrofia do «eu» que pensa que se basta a si mesmo, e não precisa de nada nem de ninguém. Contra a sedução das ideologias, que nunca salvaram ninguém, de reduzir o mundo a três dimensões – comprimento, largura e altura –, anulando o horizonte de Deus, na sua Mensagem para este Dia, o Papa Francisco denuncia «a guerra mundial aos pedaços» em que vivemos, faz ver que «o verdadeiro campo de batalha (…) é o coração humano», e apela à «não-violência ativa e criativa» como «estilo de vida» capaz de romper este nevoeiro em que vivemos atolados. Para ajudar a fazer nascer em nós novos estilos de vida que promovam «a justiça, a paz e a salvaguarda da criação», mas também «a solicitude pelos migrantes, os necessitados, os doentes e os excluídos, os marginalizados e as vítimas dos conflitos armados e das catástrofes naturais, os reclusos, os desempregados e as vítimas de toda a espécie de escravidão e de tortura», o Papa Francisco anuncia, para este dia primeiro de janeiro, a criação, na Cúria Romana, de um novo «Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral». E é sempre bom lembrar que a justiça é o sabor que vem de Deus, e a paz não é a paz romana, assente no poder das armas, nem a paz do judaísmo palestinense, assente nos acordos entre as partes. A paz é um Dom de Deus! Portanto, mais do que conquistá-la, é preciso rezá-la e dispor-se a recebê-la.
  1. De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).
  1. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos abençoe também.

Que Deus nos abençoe e nos guarde,

Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

Cheios de amor, de paz e de alegria,

Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

E nos ponha no caminho de Maria.

O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

Num amor maior do que um letreiro.

Vela por nós, Maria, em cada dia

Deste ano inteiro,

Para que levemos a cada enfermaria,

A cada periferia,

Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

Igreja Catedral de Lamego, 1 de Janeiro de 2017, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Dia Mundial da Paz.

+ António, vosso bispo e irmão

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