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À conversa com o Padre Diamantino Alvaíde

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O Padre Diamantino Alvaíde, ordenado há onze anos, é membro do nosso presbitério lamecense e, desde há um ano a esta parte, é pároco de Cabaços e Moimenta da Beira, onde reside. Depois de ter sido pároco, juntamente com o Padre Bráulio Carvalho, em várias paróquias das zonas pastorais da Meda e de Vila Nova de Foz Coa, foi enviado para Roma onde, no passado dia 17 de junho, apresentou e defendeu, com êxito, o seu trabalho académico de doutoramento. É com alegria que o felicitamos pelo caminho percorrido e pela etapa alcançada.

Um padre em Roma

  1. Em poucas palavras, como foi vivida esta experiência eclesial e académica em Roma?

Foi uma experiência essencialmente vivida de forma muito desprendida, bastante séria e com grande sentido de busca. Desprendida, porque deixei para trás, durante aqueles anos, aquilo que gostava – e gosto – imenso de fazer, que é estar no meio das pessoas, a desenvolver o trabalho pastoral de pároco. Séria, porque sentia o peso de uma grande responsabilidade que me tinha sido incumbida, sentia que tinha de “dar contas” disso, que precisava rentabilizar o tempo de estudo ao máximo, e isso perseguia-me. Sentido de busca, porque sabia que estava temporariamente numa cidade riquíssima de cultura, estava a ter uma oportunidade que muita gente gostaria de ter, e estava o mais próximo possível – no tempo e no espaço – das fontes do saber teológico. Foi verdadeiramente uma experiência extraordinária!

  1. A experiência pastoral, após a caminhada no Seminário e ordenação sacerdotal, foi importante para o que se seguiu?

Sim. Bastante. Não teria sido – de todo – a mesma coisa. Aliás, os documentos magisteriais – nomeadamente do Concilio Vaticano II – recomendam que, os padres que forem convidados a continuar a sua formação teológica, o façam “depois de alguma experiência pastoral” (AG 16). E eu reconheço a importância que tiveram os anos de paroquialidade e de outros trabalhos pastorais que foi desenvolvendo antes de ir para Roma. As paróquias, a organização das estruturas que as compõem, o contacto diário com as pessoas de diversas idades, os desafios e problemas que vão surgindo, etc. conferem-nos uma maturidade muito mais sólida em todas as dimensões da vida pessoal e pastoral. Portanto, o tempo que se passa no “terreno” logo a seguir ao percurso de Seminário, é uma parte indispensável da nossa formação como sacerdotes. E para quem – como eu – foi fazer especialização concretamente na área da Teologia Pastoral, na hora de abordar e compreender certos conteúdos teológicos sente-se imediatamente a vantagem de ter estado com “as mãos na massa” antes de ter voltado a estudar.imgp9923

  1. Como era a vida de um sacerdote-estudante naquela cidade?

Era um pouco mais de estudante do que sacerdote. Não tanto no ser, mas sobretudo no fazer. Os dias decorriam entre a Universidade e o Colégio Português, onde residi todo o tempo. E, tanto num lado como no outro, a ocupação (quase) permanente era o estudo. O número de sacerdotes a estudar em Roma é bastante elevado. E cada um está – até certo ponto – por sua conta e risco. O tempo é gerido da forma que cada um entende ser a melhor. A cidade, por si só, é uma inextinguível galeria de arte. Depois a oferta cultural é imensa, todos os dias. A nível académico a oferta é igualmente grande. As universidades têm todas boas bibliotecas, de fácil acesso, e todas elas têm uma vasta proposta de conferências, seminários e congressos nas mais diversificadas áreas do saber, com a presença dos melhores especialistas nas diversas matérias. A nível sacerdotal é um bocadinho mais difícil. Não há trabalho pastoral paroquial para todos. As paróquias da cidade e dos subúrbios acolhem preferencialmente os nossos irmãos sacerdotes de países em desenvolvimento, que precisam mais de ganhar algum dinheiro para fazer face às despesas. Quer isto dizer que, além de se estar longe do presbitério e distante da família, não se faz grande parte das coisas que dão significado e gosto à vida sacerdotal secular. No entanto, é uma experiência que vale muito a pena fazer!

Trabalho académico

4.Fala-nos um pouco do curso escolhido, da universidade que frequentaste e do Colégio Português onde estiveste alojado.

O curso

O curso escolhido foi o de Teologia Pastoral. A incidência é essencialmente sobre a pastoral fundamental ou geral, como lhe quisermos chamar. Os conteúdos versam um pouco sobre a história da Teologia Pastoral e os esforços feitos para provar a teologicidade da pastoral e a pastoralidade da teologia, que lhe confere o estatuto teológico que hoje tem, a par da teologia dogmática, bíblica, etc.. O leque de cadeiras do curso é bastante alargado. Com muito incidência nas diversas vertentes da pastoral, assim como na eclesiologia, na pedagogia, nos documentos magisteriais, etc.. A coluna vertebral do curso é o desenvolvimento do chamado “método teológico do discernimento pastoral”, que o Prof. Sergio Lanza foi implementando como bandeira de referência dentro da escola lateranense.

A universidade

A universidade que frequentei foi a Pontifícia Universidade Lateranense. Em Roma gostam de a chamar a universidade do Papa, porque é posse do Vaticano, e o perímetro onde está implantada – por detrás da Basílica de São João de Latrão – é extra-territorial. A nível da teologia, a universidade tem cursos em diversas áreas. Isto faz com que por ali se encontrem padres e seminaristas, religiosos e religiosas, de todas as partes do mundo. Tive colegas de países que nunca imaginava ser possível andarem por ali. Mas a universidade é também bastante conceituada a nível de Direito Civil e de Filosofia. O que quer dizer que a moldura humana não é só composta de padres e freiras. Esta diversidade enriquece bastante a universidade.

O colégio

Quanto ao Colégio Português, que foi a minha habitação durante cinco anos, é também um espaço bastante rico pela diversidade de culturas que ali se encontram. Não é muito grande. Fica paredes-meias com o Estado do Vaticano. Está por isso no coração da cidade. Tem capacidade para alujar 40 padres estudantes, embora não esteja com a lotação esgotada. Sempre sob direção de padres portugueses, com uma congregação de religiosas portuguesas ajudar nas lides domésticas, o colégio alberga prefrencialmente os padres de Portugal a estudar em Roma, depois os padres dos países de língua oficial portuguesa, e depois todos os outros que por lá queiram ficar. Estão quase sempre padres de 12 ou 13 nacionalidades diferentes, sendo que o maior número – a par dos portugueses – são os coreanos. É muito enriquecedora a convivência com toda esta gente, que vem de realidades bastante diferentes das nossas.

5.O teu trabalho final, com vista ao doutoramento, inscreve-se na área da pastoral. Resumidamente, podes dizer-nos quais as linhas principais?

O núcleo central do meu trabalho é a Pastoral Integrada. Isto é, trata-se do desenvolvimento do agir pastoral não tanto subdividido em setores, como estamos habituados a esquematizar e organizar a pastoral, mas de uma forma integradora de todos âmbitos de ação eclesial e de todas as faixas etárias em simultâneo. Não é a aposta mais fácil, mas estou convencido que, numa realidade como a nossa, é a mais necessária. O trabalho parte da realidade concreta da nossa diocese, muito marcada pelo envelhecimento populacional e pela desertificação. Procurando sempre uma certa fidelidade ao método do discernimento pastoral – de que falava atrás –, os dois primeiros capítulos da tese são essencialmente uma análise social, religiosa e eclesial do território diocesano de Lamego. Os dois capítulos seguintes são a fundamentação teológica. Como as grandes preocupações da Pastoral Integrada são a pessoa humana no seu todo e a comunhão eclesial, o terceiro capítulo é essencialmente de antropologia teológica e o quarto capítulo desenvolve as linhas mestras da eclesiologia de comunhão. Os dois últimos capítulos são bastante mais práticos, nos quais são apresentadas as linhas de ação pastoral integrada. O quinto capítulo oferece um conjunto de propostas pastorais a partir das tradicionais estruturas e organismos de serviço eclesial. E o sexto capítulo dá-nos as diretrizes para a verificação dos resultados que se vão ou não obtendo, assim como as pistas necessárias para um contínuo e incessante discernimento e atuação pastoral.

6.Quando poderemos ter acesso à publicação do teu trabalho?

Não tenho um prazo definido para isso. Para já vou publicar uma parte da tese na coleção da Universidade, que é o exigido para me ser atribuído o título. Depois ver-se-á como e quando poderei publicar a o trabalho na íntegra.

Vida pastoral

  1. Há um ano foste nomeado e enviado para Moimenta da Beira e Cabaços. Como tem sido a adaptação a esta missão?

Bastante boa. Sinto-me muito acolhido pelas pessoas, e isso ajudou-me imenso na adaptação. Não era uma realidade desconhecida para mim. No entanto, é um espaço pastoral que me surpreende muito positivamente, a cada momento. Sinto-me um privilegiado por servir em duas realidades tão diferentes. Cabaços tem uma dimensão muito próxima da maioria das paróquias da nossa diocese. É uma aldeia pequena mas simpática, com gente muito boa, de bastante prática religiosa, e muito devotos do São Torcato, cujo santuário é o ex-líbris de toda a comunidade.

Moimenta da Beira é imensamente maior do que Cabaços. Tem já características bastante citadinas. A maioria das pessoas residentes não são naturais da vila. E dessas, uma parte significativa faz vida religiosa nas paróquias de origem, nas outras terras do concelho. Isto confere à realidade paroquial carateristicas muito próprias. Contudo, o desafio não deixa de ser interessante e motivador. É um bom campo de evangelização, com gente acolhedora, aberta à mudança, disposta a ajudar e a comprometer-se.

O balanço deste primeiro ano, passado nestas terras, é bastante positivo.  Apesar de alguns obstáculos e dificuldades – como era de esperar –, sinto-me já pertença destes dois povos e sei que o sentimento é mútuo.

  1. Em que medida o percurso académico agora concluído poderá contribuir para a missão pastoral assumida?

Como já todos demos conta, longe vai o tempo da cristandade. E por isso cada comunidade assume contornos de vida eclesial muito específicos. Ainda para mais numa diocese bastante heterogénea, como é a nossa. Assim, o percurso académico que fiz ajuda-me a saber estar mais atento a cada realidade pastoral – seja ela paroquial, arciprestal e diocesana –, a analisar essa mesma realidade, a interpretar os sinais de maior vitalidade e os sintomas de maior fraqueza pastoral. Isto é um dos pressupostos elementares para uma investida mais acertada nos métodos e nas formas de evangelizar. Quer isto dizer que agora me posiciono de forma diferente diante dos problemas que surgem e dos desafios que cada tempo e cada espaço, maior ou mais pequeno, me vai oferecendo.

  1. Este ano, durante um semestre, já acompanhaste os nossos seminaristas do Ano Pastoral, transmitindo algum do teu saber e da tua experiência. Estás preparado para alargar esse serviço a toda a diocese?

Sim. Sinto-me mais ou menos capaz de o fazer. E além disso, sinto que tenho essa mesma obrigação, na medida do que me for sendo solicitado. O contacto mais direto com o Diogo Rodrigues e o Luis Rafael, alunos do VI ano, foi extraordinária. Por um lado, porque foi a minha primeira experiência de lecionação a este nível. Por outro lado, porque naqueles que estão prestes a abraçar a causa do sacerdócio sobressai um conjunto de preocupações e inquietaçãos – que eles foram partilhando – que ajudam a compreender alguns desajustes na estrutura eclesial insitucional e alguns rumos de ação pastoral menos bem definidos. Portanto, além do que se aprende com os seminaristas, eles espicaçam-nos a olhar mais cirurgicamente para a realidade diocesana no seu conjunto. O que é ótimo!

 in Voz de Lamego, ano 86/45, n.º 4381, 4 de outubro de 2016

  1. João Silva
    05/10/2016 às 15:12

    Sem duvida uma conversa de extrema importância, agora gostava de deixar no ar o seguinte, a diocese de lamego e das poucas que não prepara Diáconos permanentes haverá alguma ideia ou solução de futuro?
    Um abraço amigo
    João Silva

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