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JUBILEU DA MISERICÓRDIA | ENSINAR OS IGNORANTES

ensinar os ignorantesA formulação tradicional desta Obra de Misericórdia, “Ensinar os ignorantes”, corre o risco de não ser bem acolhida no tempo atual, atendendo à utilização da palavra “ignorante”. Quem é que gostará de ser apresentado como tal? Porque se é verdade que nunca saberemos tudo, também é verdade que nos sentimos ofendidos quando assim chamados. Talvez porque associamos tal designação a um certo animal que já não se vê muito por aí!

Por outro lado, para lá dos reparos à sua formulação, também se levantam dificuldades quanto à sua concretização: como ensinar alguém quando a informação parece estar tão acessível e ao alcance de um simples clique? Quem será o possível destinatário desta Obra de Misericórdia?

Contudo, apesar da possível e expectável resistência ao epíteto de “ignorante” e da facilidade em encontrar o que se procura, é verdade que a ignorância não desapareceu, embora tenha diminuído muito a humildade para se reconhecer como tal.

A rapidez, facilidade e comodidade no acesso à informação é uma evidência, mas a velocidade com que se fica a saber repercute-se na maneira como se esquece. Há uma curiosidade momentânea que é satisfeita mas que nem sempre se traduz em conhecimento duradouro. Há mais informação, o que não equivale, por si só, a uma melhor formação.

Como alguém escreveu, “sabemos muito, mas já não conhecemos quase nada”, já que conhecer significa mudar o modo de ser e de interagir com o mundo. Nesse sentido, conhecemos na medida em que renascemos. Mas à velocidade a que os dias correm e a informação circula, parece não haver tempo e paciência para “nascer de novo”. Veja-se, por exemplo, o desconforto e aparente desorientação quando alguém se descobre “desligado” do mundo virtual?

E a pergunta mantém-se: com a informação disponível fará sentido falar desta Obra de Misericórdia? Certamente que sim.

A escola de hoje, marcada pela aprendizagem e pelo acumular e gerir de dados, privilegia as “competências”, deixando de lado muito do que significa “ensinar”. Na verdade, através do ensino, o ser humano é introduzido num mundo, numa cultura, numa tradição. De forma sequencial, sem ocasos, ensinar deve ser visto como ocasião para ajudar alguém a construir-se, a encontrar um caminho com metas, a orientar-se na sua sede de conhecimento para a luz, a fim de ver verdadeiramente… Isso requer trabalho, vontade, tempo… Mas o tempo parece escassear.

Entendendo assim o acto de ensinar, compreendemos a actualidade desta Obra de Misericórdia. Tratar-se-á, antes de mais, de uma ajuda para apreciar o dom da vida, para descobrir um sentido, para interagir, para experimentar, para renascer…

Às vezes não é preciso muito para ensinar alguém mais distraído (ignorante): a descobrir Deus e a beleza da criação, a estar atento à natureza, a identificar e a responder a uma vocação, a valorizar o silêncio interior e exterior, a conviver com o seu semelhante, a ter tempo para não fazer nada, a estar disponível para escutar e caminhar junto, a substituir o “clique” pelo “toque”, etc.

Apesar do saber acumulado e da informação disponível, nem sempre conseguimos disfarçar a ignorância que nos acompanha e que outros poderão ajudar a minimizar.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/22, n.º 4361, 3 de maio de 2016

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