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Archive for 09/04/2016

Restauro de retábulos põe a descoberto pintura mural

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Restauro de retábulos põe a descoberto pintura mural

A Igreja Matriz de Peravelha no concelho de Moimenta da Beira ganhou a partir do mês de Março uma nova representação religiosa.

A intervenção de conservação e restauro realizada nos retábulos colaterais da Igreja, revelou a existência de pintura mural. Os altares do séc. XVIII, embora se encontrem muito alterados, apresentam características do Barroco estilo Nacional.Encontravam-se em mau estado de conservação, tendo patologias muito diversificadas: repintados com tinta plástica, inseto xilófago ativo, podridão da madeira,utilização de madeiras inadequadas, instabilidade estrutural, entre outras alterações.A intervenção realizada teve em conta as especificidades materiais, técnicas, estéticas e históricas da obra e o seu estado de conservação. Pelo facto de não se tratar de uma obra isolada, mas um conjunto, a intervenção foi pensada para que o todo se apresentasse coeso.

Após a descoberta das pinturas, foi necessário proceder à sua preservação. Identificaram-se do lado da Epistola pequenos fragmentos que não permitem identificar a temática da pintura, enquanto do lado do Evangelho se encontra uma imagem mais completa. Trata-se de uma Nossa Senhora com o Menino envolvida pela mandorla, provavelmente Nossa Senhora do Rosário, não sendo possível identificar as representações laterais.

Na montagem dos retábulos optou-se por recolocar o retábulo colateral direito no local onde se encontrava,após tratamento dos fragmentos de pintura mural e registo fotográfico para memória futura.O retábulo esquerdo ficou avançado relativamente à sua posição inicial, de forma a criar um espaço onde se torne possível visualizar a pintura. Pelo tipo de pintura, técnica e cromatismo, trata-se de uma pintura executada nos finais do séc. XVI, início do séc. XVII. Conjeturamos que a pintura ocupasse uma maior extensão, abrangendo toda a área do arco cruzeiro.

Após a desmontagem dos retábulos foi possível definir com exatidão o estado de conservação da pintura. Registava-se a presença de diversas lacunas ao nível do suporte causadas pela fragilização e decaimento da argamassa, assim como pela colocação de elementos de fixação da estrutura retabular, nomeadamente um barrote que atravessava horizontalmente toda a pintura do lado esquerdo, na zona do rosto de Nossa Senhora. Identificou-se ainda a presença de fissuras de diferentes dimensões, sendo o aspeto mais preocupante a existência de ocos entre a argamassa e a alvenaria, que colocavam em causa a estabilidade da obra. A policromia apresentava diversas lacunas, desgaste, manchas, escorrências e acumulação de sujidades várias, assim como risco de destacamento. O primeiro passo consistiu na estabilização do suporte e fixação da policromia, de forma a conseguir a segurança necessária para a remoção do barrote e a continuação das diferentes etapas necessárias à conservação da pintura.

A pintura, de inegável valor cultural, constitui um exemplar de relevância artística no quadro da pintura mural, sendo o único exemplar visível no concelho de Moimenta da Beira.

A execução deste trabalho foi possível graças ao apoio do Pároco Paulo Esteves e toda a comunidade.

Ana Carla Roçado

Departamento dos Bens Culturais da Diocese de Lamego

in Voz de Lamego, ano 86/20, n.º 4357, 5 de abril de 2016

JUBILEU DA MISERICÓRDIA | Visitar os enfermos

visitar os enfermos

A 5.ª obra de misericórdia corporal convida a visitar os enfermos, não como gesto de cortesia ou mero acto social, mas como oportunidade para estar e fazer caminho com aquele que sofre. Se é verdade que a doença pode isolar e conduzir ao rol dos socialmente invisíveis, a visita suaviza e dignifica quem sofre. Quantas vezes um ouvido atento e um coração compreensivo são sinónimo de alívio e ocasião decisiva para a desejada empatia!

Mas pode ser, também, uma oportunidade de crescimento de quem vai ao encontro, na medida em que tal presença e gesto podem contribuir para o autoconhecimento, o hierarquizar das prioridades e o relativizar o acessório. Porque também o visitador transporta consigo as suas enfermidades e feridas, tal como lembra Henri J. M. Nouwen, no livro “O Curador Ferido”: no meio do nosso sofrimento podemos tornar-nos fonte de vida para os outros. Isto é, o processo pode humanizar.

O sofrimento, a doença ou a deficiência incomodam e deixam sem palavras. Não é fácil estar diante ou ao lado de quem já perdeu o futuro, seja pelo desespero da dor seja pela falta de perspectiva de cura. E quantas vezes está também presente a revolta de quem não compreende nem aceita!

Por outro lado, para o crente, pensar na doença como castigo é sofredor e afasta de um Deus que se revela como Pai e Amor. Lembremos o bíblico Job. Sofre com a perda da saúde, dos familiares e dos bens, mas sofre também ao ouvir os seus visitadores falarem de um Deus castigador. Job protagoniza o exemplo do inocente sofredor que se recusa a aceitar os seus males por causa de algum mal que nunca praticou e que os seus amigos tentar colocar como justificação para a sua situação. Diz-se que o teólogo Romano Guardini, no leito da morte, terá dito: “No dia do juízo responderei às perguntas que Deus me fizer. Mas também terei algumas perguntas para fazer: porquê o sofrimento dos inocentes?”. Nesse sentido, estar diante do doente é estar diante do mistério.

A visita ao doente precisa de serenidade, capaz de proporcionar uma gradual comunicação e contribuir para uma crescente confiança entre as partes. Por outro lado, a atenção do visitador deve olhar também para os que cuidam dos doentes.

Por essas terras fora ou à nossa volta, quanto amor testemunhado por pais, filhos, familiares, amigos ou profissionais que, durante anos, cuidam, protegem, alimentam e acompanham quem não tem forças ou está limitado por doenças incapacitantes!

Lembremos também as pessoas anónimas, os membros de grupos/movimentos paroquiais, os voluntários dos hospitais… tanta gente que, sem receitas e sem cursos de medicina, passa pelas casas dos doentes ou por entre as camas hospitalares para se inteirar do que se passa, em atitude de serviço (nem que seja para o evangélico “copo de água”) ou, simplesmente, permanecendo em compreensivo silêncio!

O termo “visita” pode fazer pensar que o acto termina com a distância do enfermo. Mas há uma ligação e uma continuidade que se estabelecem e que podem passar pela oração oferecida, pelo interesse em saber novas, pela vontade em regressar e pelo continuar a acompanhar outros que aparecem…

JD, in Voz de Lamego, ano 86/20, n.º 4357, 5 de abril de 2016