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Páscoa em Ariz – 100 anos

ariz

Quem diria que cem anos passaram por sobre o signo desta imagem e a evocação de semelhante quadro desenhado por Aquilino Ribeiro, nas “Terras do Demo”, vão cem anos, por contas largas!…

O padrezinho novo que na Páscoa de 2015 percorre as ruas de Ariz, no concelho de Moimenta da Beira, é mensageiro de Boa Nova, como o era, ao tempo, nesses cem anos idos, o Padre Francisco Gaudêncio. Segue à frente, agora, de uma cruz de redenção, modesta, no lavor, ao contrário da guizalheira cruz de prata que o Torres, sacristão, transportara nessa Páscoa antiga, esta ornada de flor branca, a outra de uma camélia vermelha colhida talvez no jardim de Glòrinhas. Como antigamente vai o rapaz da campainha e vão dois homens de opa branca que transportam, um a caldeirinha, outro o saquitel onde arrecada côngruas em atraso, moedas avaras que testificam esquecidas dízimas de outrora. São já raros os queijos postos sobre a mesa, os bolos de azeite, o pão-de-ló enfeitado com flores de açúcar em ponto, que o padrezinho de agora já não tem uma família a sustentar como tinha o padre Francisco e tantos outros seus iguais.

Já não há corropio de gente nas ruas da aldeia, como antes, nesse atropelo do beijar a cruz nas multiplicadas casas de parentes. Muitas casas permanecem desertas, os donos ausentes por Suíça ou França, um ou outro ainda veio, saudoso das práticas antigas, retornando ao outro dia.

Este é o dia que o Senhor fez. Alegremo-nos n’Ele!… Aleluia! Aleluia!… O senhor padre Francisco dizia isto em latim, mas os padrezinhos novos ou os seminaristas que cumprem desígnios semelhantes empregam o linguajar comum.

A família reunida beija os pés da Cruz levada em roda. Boas Festas!…

Estava um dia de sol no dia de Páscoa de 2015, em Ariz. Estava um dia de sol nesse dia, como na tarde da última tarde de Páscoa na minha terra, franja das Terras do Demo onde estas se implantam, há que seculos, nem sabemos, vem uma e outra do antiquíssimo tempo das orcas, os pastores e os lavradores desse tempo, como os de agora, celebravam a Primavera que chegava, que tal nome não houvera ainda nessa data, um tempo propício anunciava-se com as flores rebentando nos campos a reverdecer onde o trigo das primeiras sementeiras era promessa, como era o ventre pejado das ovelhas e das mulheres que também floresciam a seu modo.

Páscoa de sempre!… Enquanto os homens permitirem que a Terra floresça!… Enquanto houver um homem sofredor que se levante!…

Alberto Correia | Foto: A. Correia. Ariz, 2015,

in Voz de Lamego, ano 86/20, n.º 4357, 5 de abril de 2016

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