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JUBILEU DA MISERICÓRDIA | VESTIR OS NUS

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A roupa que usamos esconde a nudez com que nascemos e contribui para a afirmação da nossa identidade e para a preservação da nossa individualidade. Instintivamente, por causa do frio, o homem sempre procurou cobrir-se, mas também como necessidade de salvaguarda e afirmar a sua intimidade e identidade. Por outro lado, e para lá da e do conforto oferecido, a roupa é um adereço para o corpo, tal como o são tantos outros adornos que variam segundo as culturas e os gostos de cada um.

A roupa é fonte de negócios para muitos e contribui para celebrar festas e acontecimentos. Mas todos poderão reconhecer alguma futilidade e superficialidade em certas áreas neste sector. O essencial da vida está para além destes adereços e o homem será sempre mais do que aquilo que veste, embora, às vezes, sejam os “trapinhos” a determinar a notícia e a imagem!

A este propósito, o nobel da literatura, Mário Vargas Losa escreveu: “Na civilização dos nossos dias é normal e quase obrigatório que a cozinha e a moda ocupem uma boa parte das secões dedicadas à cultura  e que os ‘chefs’ e os ‘costureiros’ e ‘costureiras’ tenham agora o protagonismo que antes tinham os cientistas, os compositores e os filósofos” (A Civilização do Espetáculo, p. 35).

Porque, ficar apenas no exterior será curto, tal como nos lembrou Jesus: “Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido?” (Mt 6, 25).

Neste contexto, e em jeito de conclusão, poderíamos dizer que a roupa protege, diferencia e adorna um corpo que, como lembrou o sofredor Job, saiu nu do ventre materno e nu voltará para lá (Job 1, 21).

Mas como entender, então, esta Obra de Misericórdia (OM)? Quem são os que andam nus? Como contribuir para que o outro se sinta digno e próprio na sua individualidade?

Certamente que a concretização desta OM passa sempre pelo partilhar com quem tem menos, minimizando a exposição ao frio e ao desconforto e contribuindo para a dignidade alheia.

Por outro lado, sabemos que a nudez não é sempre sinónimo ou consequência da pobreza material. Por esse mundo fora há homens, mulheres, jovens e crianças a quem arrancaram, de forma violenta e injusta, as roupas para serem explorados. Também encontramos gente que vai perdendo a roupa que se rasga ou estraga por causa dos “arames” que precisa ultrapassar e em consequência das barreiras que precisa de transpor…

Vestir os nus será partilhar agasalhos, mas é também restituir ao outro a digna beleza que tem. E quantas situações rejeitam e negam esta verdade fundamental. Independentemente do aspecto exterior, da idade ou vigor físico, o outro tem uma dignidade que nenhuma nudez rouba ou diminui e que nenhuma roupa acrescenta: a dignidade de ser filho de Deus.

Por fim, e para lá do reconhecer da dignidade alheia, esta OM também se poderá concretizar através do envolvimento na vida do outro. Não para controlar ou explorar, mas para conhecer e respeitar.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/18, n.º 4355, 22 de março de 2016

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