JUBILEU DA MISERICÓRDIA | DAR DE COMER

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A misericórdia não pode reduzir-se a um vago sentimentalismo ou a um discurso sem consequências; a misericórdia precisa ser traduzida em gestos, tal como nos recorda S. João: “Meus filhos, não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade” (1 Jo 3, 18). S. Tomás d’Aquino, na sua reflexão, concluiu que a acção mais agradável a Deus é o acto interior de amor a Deus (dilecção), mas a obra exterior que melhor expressa esse amor são as obras de misericórdia: “Quanto às obras exteriores, a súmula da religião está na misericórdia”.

Nesta perspectiva, assumem particular destaque as Obras de Misericórdia (OM). Tal como as conhecemos, acrescentadas ou reformuladas, ilustram bem as possibilidades de acção e todas podem ser vistas como expressão concreta do amor, uma forma de afastar a “indiferença”, de evitar a “anestesia” do espírito e de “acordar” a consciência, porque “não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados” (MV 15).

A primeira Obra de Misericórdia diz respeito a algo muito básico: “Dar de comer a quem tem fome”, o que nos coloca perante a pobreza, a miséria, o abandono. O seu cumprimento exige o fim da obsessão por possuir, por acumular, por procurar apenas o próprio benefício. Mas questiona também a forma como se possui ou usufrui: quantas vezes os desperdícios que se produzem não ilustram o modo superficial como se tratam as coisas? Trata-se de um dever de justiça, mais do que um gesto de bondade, tal como ensinava D. Hélder Câmara: “As pessoas não devem pedir, de chapéu na mão, aquilo a que têm direito de chapéu na cabeça”. A caridade não substitui a justiça.

A verdadeira misericórdia parte de uma grande valorização do outro como sujeito. Dar de comer ao outro como se fosse inferior, um objecto, um recipiente, não chega. Por isso, só dá algo a alguém quem é capaz de sair de si mesmo, deixando de ser autoreferencial, assumindo-se “em saída”. Não será fácil passar do consumismo à generosidade, a um espírito sereno que permita desfrutar das coisas simples da vida.

Uma das formas possíveis para cumprir esta e outras OM será sempre a acção de promover o outro. Uma coisa é dar algo para resolver uma necessidade imediata; outra coisa é ajudar a pessoa a conseguir algo com o seu esforço e criatividade. Num mundo competitivo facilmente se pode imitar Caim, mas perante a invisibilidade a que os mais fracos estão sujeitos, sempre ouviremos perguntar pelo nosso irmão (Gn 4, 9). Santa Faustina rezava: “Ajuda-me, Senhor, a que os meus ouvidos sejam misericordiosos para que tome em conta as necessidades do meu próximo e não seja indiferente aos seus sofrimentos e às suas queixas”.

À nossa volta, discreta ou abertamente, há gestos contínuos de generosidade. Mas nem sempre se evita algum pensamento ou juízo: a preguiça não pode ser premiada, os vícios devem ser combatidos e não alimentados, o desgoverno não pode ser ignorado, etc.

A concretização deste “dar de comer” pode assumir formas diversas: ajudar a bater à porta das instituições, salvaguardar direitos e garantias a quem não tem vez e voz, ajudar a gerir o que se recebe, patrocinar tratamentos necessários, dialogar para melhor conhecer, pagar o salário devido, respeitar a dignidade…

JD, in Voz de Lamego, ano 86/16, n.º 4353, 8 de março de 2016

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