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Archive for 25/12/2015

NATAL: Manifestação da misericórdia de Deus

Natal

«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9, 1). Esta afirmação do profeta Isaías abre a liturgia da Palavra da noite de Natal. É assim que se apresenta ao mundo o nascimento do Salvador: uma luz que ilumina as trevas e que enche de esperança aqueles que a contemplam.

O Natal é luz. É uma irrupção da luz de Deus neste nosso mundo cheio de trevas. Trevas exteriores: violências, guerras, ódios, irmãos que não se perdoam, não se falam, não convivem, não se aceitam mutuamente.

E trevas interiores: ressentimentos, mágoas, abandono da oração, da confissão, da missa dominical, da formação cristã, das obras de misericórdia, da preocupação pelos que temos ao nosso lado.

Neste Ano Santo da Misericórdia, somos chamados a olhar para o “sinal” do Natal ― «um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12) ― como uma das manifestações mais maravilhosas da misericórdia de Deus para connosco.

Precisamos voltar a contemplar o mistério do nosso Deus que Se faz uma criança para que nos aproximemos d’Ele cheios de confiança.

Este mistério de misericórdia é, como diz o Papa Francisco, fonte de alegria, de serenidade e de paz. Três dons que o nosso coração anseia! E que, no meio da correria do dia-a-dia, parecem cada vez mais difíceis de alcançar.

Fomento desejos concretos de me aproximar de Deus neste Natal? De abrir as portas do meu coração para que Ele possa entrar? De estar mais atento àqueles que estão ao meu lado?

Que a luz deste Natal ilumine de verdade as nossas almas! Que o Menino Jesus encontre em cada um de nós um coração bondoso e aberto! Um coração que Ele possa encher de misericórdia para com todos aqueles que nos rodeiam!

 

Pe. Rodrigo Lynce de Faria, in Voz de Lamego, ano 85/55, n.º 4343, 22 de dezembro

Uma Carta para o Menino Jesus |Conto de Natal

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O André nasceu em Alhos Velhos, fruto indesejado duma jovem da rua e da noite, e de um consumidor de heroína que lhe prometeu “mundos e fundos”… e nunca mais apareceu.

A mãe, sentindo-se incapaz de dar ao filho o pão e a educação que ela própria não tivera, logo que pôde, colocou-o num cestinho e, ainda de noite, antes que a porta se abrisse e os funcionários entrassem, foi pô-lo à entrada de uma instituição acolhedora de crianças. Não vendo ninguém, afastou-se um pouco, postou-se na esquina da rua e ficou à espera para ver o que acontecia.

Chegada uma senhora, e ouvindo a bebé a choramingar dentro da cesta, olhou intrigada em todas as direcções e, não vendo ninguém, abriu a porta, subiu a escada e falou com a diretora. Daí a alguns minutos, desceu à rua, pegou na cesta e entrou de novo.

Passados meses, duas senhoras que tinham oficializado a sua relação perante o Estado, na Conservatória do Registo Civil de Porto Leão, onde viviam, vieram à instituição e, depois de um processo acelerado (era novidade a adoção de crianças no seu caso), ficaram com o André.

Quando chegou a hora de o menino entrar no Jardim Infantil da Santa Casa da Misericórdia da localidade, verificou que os pais dos outros meninos vinham trazê-los de manhã e busca-los à tarde: umas vezes vinha a mãe, outras vezes vinha o pai. Os pais, com os seus braços fortes, abraçavam os filhos com força, bamboleavam-nos com alegria e carinho, e metiam-nos no automóvel. E o Zé Pedro começou a ficar triste, pensando:

– Só eu é que não tenho pai! Só eu é que não tenho pai!

Chegado o Advento, e aproximando-se o Natal, a Educadora de Infância montou o presépio à entrada da salinha de trabalho, chamou as crianças, fê-las sentar num círculo, e falou-lhes do Natal e do Menino:

– Isto, meus meninos, é o presépio. É para nos lembrar a todos o que é o Natal e como nasceu Jesus. Foi assim, numa manjedoura, em palhinhas, que a mãe d’Ele o colocou quando nasceu.

– Então, a mãe não foi tê-lo ao hospital, como foi a minha mãe quando nasceu a minha irmã? – perguntou o Ricardo

– Não, Ricardo, naquele tempo (já lá vão dois mil anos), ainda não havia hospitais nem maternidades. Para mais, Nossa Senhora tinha ido de viagem a Belém, estava longe da sua casa, e não teve outro lugar melhor onde tivesse o Menino.

– Quem é aquele senhor que está ali ao lado, de joelhos, e todo curvado para baixo? – perguntou o André.

– Aquele é S. José, o “pai” do Menino. Daqui a uma semana, é o Natal. Vamos todos celebrar o nascimento de Jesus. Ele veio ao mundo porque é muito nosso amigo: veio ensinar-nos coias boas e veio trazer-nos coisas boas. Vocês querem escrever uma cartinha ao Menino, a pedir-lhe que vos traga alguma coisa especial, neste Natal?

-Eu quero! Eu quero! Eu também! – responderam todos.

-Então escrevam, e ponham aqui no presépio. E se algum não souber escrever, diz-me ao ouvido o que quer, e escrevo eu.

Na véspera de partirem para férias do Natal, a senhora abriu as cartas, uma a uma, para dar no dia seguinte a cada um a prenda que cada um pedira, em nome do Menino Deus.

A carta do André dizia assim:

Meu querido menino Jesus

Eu tenho tudo, tudo, tudo: roupa, brinquedos, rebuçados, chocolates…tudo, mas não tenho pai nenhum.

Não tenho um pai que me ralhe, que jogue à bola comigo, que me leve às cavalitas…

Se és tão bom como me dizem, dá-me um pai igual ao teu. Não quero mais nada. Não preciso de mais nada. Obrigado.

Assino: andré leal antunes borges

            Rua do Pôr do Sol, 43 – Porto Leão.

             Telemóvel: 912 777 007

Pe. Correia Duarte, in Voz de Lamego, ano 85/55, n.º 4343, 22 de dezembro