MISERICÓRDIA: Atributo divino

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A leitura da Sagrada Escritura revela-nos um Deus presente, próximo e misericordioso que, sem deixar de ser justo, sofre connosco e por nós, respeita a liberdade das suas criaturas e não cessa de esperar o regresso do filho pródigo. O Deus que se revela ao longo da história, cujo cume da revelação acontece em Jesus Cristo, é um Deus que tem que ver connosco e quer a salvação de todos.

A misericórdia não suprime a justiça de Deus, aquela que coloca o pecador diante de Deus (Ex 34, 6; Os 11, 8). Deus age segundo a sua misericórdia e segundo a sua justiça. De acordo com o NT, a misericórdia é parte essencial da caridade que Jesus revela, exige e torna possível (Mt 5, 48; Lc 6, 31). Se o atributo da justiça conota as noções de severidade e exigência, mas também de transcendência da santidade divina, o atributo da misericórdia reenvia a uma compaixão fundamental, à vigilância compreensiva de um Deus que “sabe de que somos formados” (Sl 103,14) e que se mostra sempre disposto à clemência e ao perdão.

A justiça de Deus não está acorrentada à nossa noção de justiça, de dar a cada um segundo os seus merecimentos, porque Deus é amor (1 Jo 4, 8) e a misericórdia divina é expressão da fidelidade de Deus a si mesmo e da absoluta soberania no amor. Ao longo do tempo, o Criador demonstra uma inesgotável paciência com os homens, não abandona ninguém e a cada um oferece novas oportunidades, novos começos. Dito de outra forma, a justiça divina não é uma justiça legal nem simplesmente retributiva, mas uma justiça “re-creativa”; trata-se de recriar o ser humano e de o salvar, algo que não pode existir sem amor e sem misericórdia.

A misericórdia divina alimenta a esperança de redenção, mas não se pode confundir com o superficial “deixar andar” tão característico de quem se instala na facilidade ou no comodismo. A misericórdia é a propriedade fundamental de Deus e a maior das virtudes que possamos cumprir (EG 37), não para diminuir a exigência dos mandamentos, mas para melhor os compreender e realizar, segundo o Evangelho. Se Jesus diz: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36), isso tem consequências para a vida cristã que é chamada a viver as obras de misericórdia corporais e espirituais.

O amor é o valor fundamental da experiência e da vida cristã, o que há de mais sublime e profundo no homem, o que lhe permite ser plenamente humano. A sua falta faz com que a existência humana seja vazia e sem sentido, ao mesmo tempo que impossibilita ser cristão, porque, no seguimento de Jesus, o amor é o padrão da vida cristã (St. Agostinho dizia: “ama e faz o que quiseres”).

A misericórdia divina sossega-nos diante das possíveis limitações pessoais, mas põe-nos em movimento. Estamos diante de algo que é exigente e provocante, pois “a mensagem da misericórdia divina não é a mensagem de uma graça barata” (W. Kasper).

JD, in Voz de Lamego, ano 85/54, n.º 4341, 8 de dezembro

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