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Papa Francisco: Ódio e violência em nome de Deus

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Quase a terminar a sua viagem, o Papa Francisco encontrou-se com a comunidade muçulmana, na Mesquita Central de Koudoukou, em Bangui, República Centro Africana. O Papa sublinhou as ligações de fraternidade que unem cristãos e muçulmanos e o empenho a que são chamados para se comportarem como tais. Na verdade, “sabemos bem que as violências que abalaram recentemente o vosso país não se fundavam em motivos propriamente religiosos, antes pelo contrário, quem afirma crer em Deus deve ser também um homem ou uma mulher de paz, e na RCA cristãos, muçulmanos e membros das religiões tradicionais viveram juntos, em paz, durante muitos anos”, disse Francisco, tendo também acrescentado: “Por isso, devemos permanecer unidos, para que cesse toda e qualquer acção que, dum lado e doutro, desfigura o Rosto de Deus e, no fundo, visa defender, por todos os meios, interesses particulares em detrimento do bem comum. Juntos, digamos não ao ódio, à vingança, à violência, especialmente aquela que é perpetrada em nome duma religião ou de Deus. Deus é paz”.

O Papa recordou depois o importante papel dos líderes religiosos cristãos e muçulmanos nestes momentos difíceis para restabelecer a harmonia e a fraternidade entre todos, e citou em particular os gestos de solidariedade que cristãos e muçulmanos tiveram para com os seus compatriotas, mesmo de outras confissões religiosas, durante a crise no País. E em vista às próximas eleições o Papa disse esperar que elas possam dar ao país responsáveis que saibam unir os centro-africanos, tornando-se assim símbolos da unidade da nação em vez de representantes duma facção.

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Resistir à guerra e à divisão

Foi depois da Missa na Catedral de Bangui e da Solene Abertura da Porta Santa da Catedral, com a qual foi inaugurado o Jubileu da Misericórdia na República Centro-Africana que o Papa deu início à Vigília de Oração com os jovens na noite de domingo, dia 29. O Santo Padre, antes de confessar alguns jovens disse-lhes: “A estrada que vos é proposta neste momento difícil de guerra e divisão é a estrada da resistência. Fugir dos desafios da vida jamais é uma solução. É preciso resistir, ter a coragem para resistir e lutar pelo bem! Quem foge, não tem coragem de dar vida”.

Como podemos resistir? – perguntou. “Antes de tudo: a oração. A oração é poderosa. A oração vence o mal. A oração aproxima-nos de Deus que é Todo-Poderoso. Em segundo lugar: trabalhar pela paz. A paz não é um documento que se assina e fica na gaveta. A paz faz-se todos os dias. A paz é um trabalho de artesãos, faz-se com as mãos. Faz-se com a própria vida. Não odiar, jamais! Se alguém te faz mal, procure perdoar. Nada de ódio. Muito perdão. Digamos juntos, nada de ódio, muito perdão!”. Ao dizer que estava muito contente por poder encontrar os jovens, Francisco finalizou: “Hoje abrimos esta Porta, isto significa a Porta da Misericórdia de Deus. Confiem em Deus, porque ele é misericordioso. Ele é amor. Ele é capaz de dar a vocês a paz”.

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Divisão é contrária à vontade de Deus

Na tarde de domingo, o Papa foi à Faculdade de Teologia Evangélica da capital da República Centro-Africana, onde encontrou as comunidades evangélicas do país. Francisco incentivou os presentes a continuarem o trabalho e a evangelização num país duramente provado e citou o “ecumenismo de sangue” que une todos os cristãos. Nesse ponto, o Pontífice reiterou mais uma vez que “a divisão dos cristãos é contrária à vontade de Deus”.

“Deus não faz diferença entre aqueles que sofrem. Com frequência, tenho designado isto como o ecumenismo do sangue. Todas as nossas comunidades, sem distinção, sofrem com a injustiça e o ódio cego que o diabo desencadeia… Queridos amigos, a divisão dos cristãos é um escândalo, porque contrária, antes de mais nada, à vontade do Senhor. Mas é também um escândalo perante tanto ódio e tanta violência que dilaceram a humanidade, perante tantas contradições que levantam ao Evangelho de Cristo. Por isso, com apreço pelo espírito de respeito mútuo e colaboração que existe entre os cristãos do seu país, encorajo todos a avançar por este caminho num serviço comum da caridade. É um testemunho prestado a Cristo, que constrói a unidade.

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Igreja não pode viver de memória

A Igreja em Uganda não pode viver de “renda”, deve seguir dando testemunho e ser fiel à memória dos mártires do passado. Esse foi um dos principais apelos que o Papa fez no seu último discurso em Campala, durante o encontro com os religiosos, na catedral da capital ugandense, na noite de sábado, dia 28.

Francisco dividiu sua reflexão em três pontos. Em primeiro lugar, exortou aos religiosos que peçam a graça da memória: “O principal inimigo da memória é o esquecimento, mas não é o mais perigoso. O inimigo mais perigoso da memória é se acostumar a herdar os bens dos maiores. A Igreja em Uganda não pode se acostumar à longínqua recordação dos mártires. Mártir significa testemunho”, destacou o Pontífice. Contudo, para serem testemunhas, o Papa advertiu que é preciso ter fidelidade. “Fidelidade significa fazer o que fizeram os que vieram antes: ser missionários”. Enfatizando que não falava somente aos sacerdotes, mas também aos religiosos, o Papa quis destacar a questão da missionariedade. Por fim, Francisco evocou a oração: “memória significa fidelidade, e fidelidade que somente é possível com a oração. “Oração também significa humilhação, disse o Pontífice. “Se um sacerdote deixa de rezar ou reza pouco, porque diz que tem muito trabalho, já começou a perder a memória e já começou a perder a fidelidade”, alertou Francisco.

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Unidade, dignidade e trabalho

Na República Centro-Africana, na presença das Autoridades e do Corpo Diplomático e diante da Chefe de Estado da Transição, Francisco expressou o seu desejo pelo sucesso das próximas eleições para que o país possa “empreender serenamente uma nova fase da sua história”.

“É como peregrino de paz que venho, e apóstolo de esperança que me apresento. Por isso mesmo, me congratulo com os esforços feitos pelas várias Autoridades nacionais e internacionais, a começar pela Senhora Chefe de Estado da Transição, para guiar o país nesta fase… Para iluminar o horizonte, temos o lema da República Centro-Africana, que reflete a esperança dos pioneiros e o sonho dos pais fundadores: «Unidade – Dignidade – Trabalho». Hoje, mais do que ontem, esta trilogia exprime as aspirações de cada centro-africano e constitui, consequentemente, uma bússola segura para as Autoridades, que têm o dever de guiar os destinos do país. Unidade, dignidade, trabalho! Três palavras densas de significado, cada uma das quais representa seja um canteiro de obras seja um programa nunca concluído, um compromisso a executar constantemente.

Unidade. Um valor fulcral para a harmonia dos povos. Trata-se de viver e construir a partir da maravilhosa diversidade do mundo circundante, evitando a tentação do medo do outro, de quem não nos é familiar, de quem não pertence ao nosso grupo étnico, às nossas opções políticas ou à nossa confissão religiosa. A unidade na diversidade é um desafio constante, que requer criatividade, generosidade, abnegação e respeito pelo outro.

Dignidade. É precisamente este valor moral – sinónimo de honestidade, lealdade, garbo e honra – que caracteriza os homens e mulheres conscientes tanto dos seus direitos como dos seus deveres e que os leva ao respeito mútuo.

Trabalho. É pelo trabalho que podeis melhorar a vida das vossas famílias. São Paulo disse: «Não compete aos filhos entesourar para os pais, mas sim aos pais para os filhos» (2 Cor 12, 14). O esforço dos pais exprime o seu amor pelos filhos. E também vós, centro-africanos, podeis melhorar esta terra maravilhosa, explorando sensatamente os seus abundantes recursos”.

in Voz de Lamego, ano 85/53, n.º 4340, 1 de dezembro

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