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À conversa com D. Jacinto Botelho, nos seus 80 anos de idade

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No passado dia 11 de Setembro, o nosso bispo emérito, D. Jacinto Tomás de carvalho Botelho, festejou o seu 80.º aniversário natalício. Alegramo-nos com o facto e rezamos ao Senhor da Vida para que continue a conceder-lhe as graças que necessita, ao mesmo tempo que lhe agradecemos a presença, o testemunho e a disponibilidade que sempre protagoniza entre nós.

Vemos o D. Jacinto em diversas celebrações e iniciativas diocesanas. Como tem sido a experiência de passar de bispo titular a emérito da diocese? Sempre discreto, como são os seus dias?

A minha vida como bispo emérito é muito mais tranquila que a anterior, o que me dá uma grande paz, mas não me sinto desocupado. Além dos retiros que tenho orientado para sacerdotes de várias dioceses, e de alguma ocupação ministerial que me seja pedida pelo meu Bispo, o Senhor D. António Couto, ou da colaboração solicitada pelos irmãos sacerdotes, sinto-me sempre disponível para servir onde for preciso. Gosto imenso de saborear o magistério do Papa Francisco, como acontecia com o dos Papas anteriores, e, graças à Internet não perco a comunicação sempre oportuna que vai chegando. Tenho consciência que o Senhor me pede uma vida interior mais intensa e mais comprometida. Um dos propósitos recentes que confidencio é, neste Ano da Misericórdia, ter um horário de serviço de confissões na Sé Catedral.

Como olha para a nossa diocese, onde sempre viveu, se exceptuarmos os anos em que estudou em Roma e os quatro como bispo auxiliar de Braga?  

Nos últimos três quartos do século, assistimos na nossa diocese, como na generalidade do interior português, a transformações profundas que modificaram sociologicamente as nossas populações. Depois da emigração para o Brasil, em tempos anteriores, foi-se verificando a seguir à segunda guerra mundial, um êxodo crescente da população rural tanto para as grandes cidades no país, como para a Europa e também para as nossas ex-colónias africanas. A Revolução de Abril, com a consequente independência destes últimos territórios, provocou o regresso dos denominados retornados a modificar novamente a nossa fisionomia habitacional. Entretanto a entrada de Portugal na União Europeia e a posterior adesão à moeda única, sem uma imprescindível e pedagógica preparação, promoveram-nos a um nível de vida que não tinha sido devidamente estruturado com as prévias reformas absolutamente necessárias. E as consequências são agora palpáveis na crise económica, de que, com tanto sacrifício e dificuldade procuramos desembaraçar-nos.

A antiga pastoral de cristandade deveria dar lugar a uma pastoral de evangelização tão exigida pelo Concílio Vaticano II, até para responder a uma vaga de secularismo cada vez mais manifesto. Apraz-me destacar a acção reformadora e carismática de dois sacerdotes, C. José Cardoso de Almeida e Mons. Ilídio Fernandes, que estimulados pelos prelados de então, realizaram na pastoral catequética, na pastoral social e na pastoral familiar, uma renovação notabilíssima. É de referir ainda o papel da Acção Católica, mais tarde também do Movimento dos Cursos de Cristandade e de outros movimentos de espiritualidade familiar, bem como a dinamização da pastoral juvenil. A drástica diminuição da população, fruto do baixíssimo índice de natalidade, bem como do surto de emigração agravado com a crise que ainda vivemos, levou o actual prelado a um lúcido reajustamento dos arciprestados e zonas pastorais.

Ao longo da vida conheceu diversos pontificados. Como caracteriza o actual do Papa Francisco?

Embora tivesse nascido no Pontificado de Pio XI, foi Pio XII o primeiro Papa de que tenho consciência de ouvir falar e, fruto da formação recebida no Seminário, por quem tinha uma verdadeira veneração, considerando-o quase insubstituível. Faleceu em 1958, quase dois meses depois da minha ordenação sacerdotal e nas vésperas da minha partida para Roma, para continuar estudos em História da Igreja. Vivi como tantos outros na Praça de S. Pedro as espectativas do Conclave e vibrei com a eleição de S. João XXIII. Foi a primeira eleição papal mediatizada pela televisão. Depressa nos habituou Sua Santidade a um novo estilo de convivência e comunicação. O anúncio da realização dum Sínodo para a Diocese de Roma e sobretudo da convocação dum novo Concílio Ecuménico e da reforma do Código de Direito Canónico, foi de todo inesperado. A determinação deste homem eleito com 77 anos de idade, indicava uma profunda viragem e era sinal evidente da presença do Espírito Santo que assiste a Sua Igreja. E esta convicção de fé, da presença do Senhor – eu estarei convosco … as portas do inferno não prevalecerão… – havia de consolidar-se nos pontificados sucessivos, quer no do Beato Paulo VI, quer nos brevíssimos 30 dias de João Paulo I ou no longo pontificado de S. João Paulo II, quer com Bento XVI que ainda vive. Dos 4 papas falecidos que acabei de enumerar, dois foram já canonizados e um beatificado, prova irrefutável da recordada profecia de Jesus e do papel preponderante que tiveram na História da Igreja contemporânea. Tive a graça de encontrar-me algumas vezes com S. João Paulo II, que me nomeou bispo, e também com Bento XVI. Foi na recente Visita ad Sacra Limina Apostolorum que pela primeira vez falei com o Papa Francisco. O Papa Francisco atrai-nos com a sua simplicidade onde tudo é transparência e verdade, e envolve-nos e contagia-nos, comprometendo-nos com as suas preocupações. O encontro pessoal com o Santo Padre onde cada um pôde confiar-lhe os sentimentos mais profundos, foi para mim dos momentos mais intensos desta Visita ad Limina. Experimenta-se na proximidade de Sua Santidade, que, como com Jesus, os seus preferidos são os pobres, os excluídos, os esquecidos, os das periferias quer geográficas, quer existenciais. Com o testemunho luminoso da sua vida, anuncia-nos Cristo e Cristo crucificado.

A partir do que vai observando, o que podemos esperar da próxima Assembleia sinodal sobre a família?

É com muita esperança e serenidade que aguardo a próxima reunião sinodal. Podemos dizer e suponho que até já foi afirmado que há um duplo Sínodo: o mediático e o dos membros sinodais com o Santo Padre. O mediático é caracterizado por especulações, porventura alguma manipulação, publicitando o que se afigura mais curioso e mais interessante para os leitores a quem a informação se dirige. O dos membros sinodais é o da verdade, da liberdade de expressão, mas igualmente o da atenção e da fidelidade ao Espírito Santo que conduz a Igreja. Nada mudará na doutrina – não se cansa de o repetir o Papa Francisco e não se esqueceu de o recordar no encontro que com ele tivemos. Todos sabemos que a instituição familiar se encontra muito fragilizada; em certos sectores quase desacreditada e ridicularizada, por ideologias deliberadamente opostas ao projecto de Deus que a criou. Ouvindo com atenção o Papa Francisco, nos seus mais recentes discursos, homilias, catequeses … e muito especialmente respondendo ao pedido tão empenhado de orações por esta intenção que sempre nos faz, estou certo de que o futuro Sínodo será um momento providencial para dar à humanidade a convicção de que a família é a sua fundamental e insubstituível escola. Recordo apenas uma expressão do Santo Padre no encontro com as famílias em Santiago de Cuba no passado dia 22 de Setembro: “Apesar de tantas dificuldades que hoje afligem as nossas famílias no mundo, não nos esqueçamos, por favor, disto: as famílias não são um problema, são sobretudo uma oportunidade; uma oportunidade que temos de cuidar, proteger, acompanhar. É uma maneira de dizer que são uma bênção.”

Os portugueses continuam a sofrer com a crise económica e algumas vozes criticam o aparente silêncio dos nossos bispos. Reconhece alguma justiça na crítica feita?

A questão que me é colocada reporta-me à resposta do papa Francisco a uma pergunta que no encontro da província de Braga, um dos bispos presentes – precisamente o nosso, D. António Couto – lhe fez, e que mais ou menos assim formulou: A voz de Vossa Santidade é porventura a única escutada com atenção e a mais credível no tempo presente. Que deveremos nós, bispos, fazer para o ajudar nesta missão de Pedro? O Papa Francisco recordou-nos a eleição dos diáconos repetindo-nos a palavra de S. Pedro: “Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra”, para afirmar de imediato a missão do bispo que é rezar e pregar sempre com a autenticidade do testemunho. A resposta à questão que me foi apresentada, tem de ter como pano de fundo a reflexão do Papa Francisco e não é difícil reconhecer que nos é pedida uma permanente conversão.

in Voz de Lamego, ano 85/44, n.º 4331, 29 de setembro

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