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Festa de Nossa Senhora dos Remédios | Homilia de D. António Couto

Remédios Missa1

A REVOLUÇÃO DA TERNURA

  1. Hoje é o Dia em que a gente sabe e sente que Maria é nossa mãe também, e que Deus não abandona nunca estes seus filhos muito amados, de geração em geração, um rosário de gerações de Adam até Cristo, de Cristo até hoje, até nós. É, de certo modo, como se Deus também rezasse, passando pelos dedos, amorosamente, as contas do rosário dos seus filhos queridos, de cada um de nós.
  1. Por isso, por excesso de amor condescendente, Jesus Cristo desceu ao nosso mundo, a este mundo que Deus ama tanto, não obstante os nossos inúmeros disparates e tolices. Na sua bela Exortação Apostólica programática Evangelii Gaudium [2013], partindo da lição da Incarnação, o Papa Francisco apontou à Igreja e ao mundo a «revolução da ternura» como o mais belo programa de vida para estes tempos petrificados, cinzentos e nublados: «Na sua incarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura» (n.º 88). E faz-nos também olhar para Maria com um olhar novo, bem nosso, bem humano, mas igualmente cheio de Deus: «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. N’Ela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes» (n.º 288).
  1. Lendo o nosso, os homens da cultura veem-no sombrio, noturno (Martin Heidegger), dominado pelo princípio da necrofilia (Erich Fromm), a atração pela morte (Sabedoria 1,16; 13,10.18; 15,5-6), que é o resultado do domínio do nosso «coração de pedra» sobre o nosso «coração de carne». Só a ternura, o Evangelho da ternura, que faz prevalecer a força do amor humilde sobre a brutalidade da força, pode vencer este mundo soturno e petrificado, este mundo de morte que nos rodeia e nos fascina! É quanto mostra o monge russo Zósima numa das mais belas páginas de Os Irmãos Karamazov, do grande escritor russo Fiodor Dostoiévski:

«Meus irmãos – diz Zósima –, não temais o pecado dos homens, amai ser humano também no pecado, porque é esta a imagem do amor divino, e não há amor maior sobre a terra. Amai toda a criação no seu conjunto e em cada grão de areia. Amai cada folha, cada raio de luz. Amai os animais, amai as plantas, amai todas as coisas. Se amardes todas as coisas, encontrareis nelas o mistério. Tendo-o encontrado, compreendê-lo-eis cada dia mais e melhor. E acabareis por amar o mundo inteiro com um amor total e universal. […] Amai particularmente as crianças, porque elas são como os anjos, sem pecado. Existem para nos encherem de ternura, para purificar o nosso coração, e são para nós como um sinal. Ai de quem ofender os pequeninos! […] Alguns pensamentos, especialmente acerca do pecado humano, deixam-te perplexo, e levam-te a perguntar a ti mesmo: “Devo recorrer à força ou ao amor humilde?”. Decide sempre: “Recorrerei ao amor humilde”. Se tomares esta decisão uma vez por todas, poderás vencer o mundo inteiro. O amor humilde é uma força incrível, a maior de todas, e não há outra igual a ela».

  1. O escritor católico alemão, Enrich Böll, prémio Nobel de literatura em 1972, dirigindo-se aos católicos, dizia acertadamente: «Aquilo que até hoje tem faltado aos mensageiros do cristianismo, de qualquer proveniência e latitude, é a ternura».
  1. Don Tonino Bello, bispo de Molfetta, Itália, morto de cancro em 1993, grande companheiro dos pobres e operário da paz, um homem que pediu ao mundo para abrir as janelas do futuro, escreveu esta bela oração, que intitulou Dá à Tua Igreja ternura e coragem:

Espírito de Deus, faz da tua Igreja uma sarça

que arde de amor pelos últimos.

Alimenta-lhe o fogo com o teu óleo que abrasa de amor.

Dá à tua Igreja ternura e coragem.

Lágrimas e sorrisos.

Faz dela praia dulcíssima para quem está só e triste e pobre.

Atira fora as cinzas dos seus pecados.

Faz uma fogueira com as suas avarezas.

E quando, desiludida dos seus amantes,

voltar cansada e arrependida para ti,

coberta de lama e pó,

depois de tanto caminhar,

leva-a a sério se te pedir perdão.

Não a censures,

mas unge com ternura os membros desta Esposa de Jesus

com as fragrâncias do teu perfume e com o óleo da alegria.

E depois introdu-la,

cheia de beleza,

sem mancha e sem ruga,

ao encontro do Esposo,

para que possa olhá-lo nos olhos,

sem corar,

E possa finalmente dizer-lhe: «meu Esposo».

  1. É um belo retrato da Igreja bela, a transvasar de ternura e de paz. Como Maria, Nossa Senhora dos Remédios, que hoje aqui nos congrega. Faz, Senhor, que a tua Igreja transpareça da ternura que se vê no rosto, nos braços e não mãos, de Nossa Senhora dos Remédios, que aqui veneramos, cuidando ternamente de Jesus. Deles, os dois, Mãe e Filho, assim unidos, sai a «força dos sinais» do amor humilde e dedicado que nós, peregrinos de hoje, devemos imitar. Só assim, faremos cair os «sinais da força», que andam por aí, e também aqui, instalados no nosso coração.
  1. Ontem mesmo, dia 7 de setembro, no decurso da Visita ad Limina Apostolorum, tive a oportunidade de apresentar ao Papa Francisco esta bela imagem de Nossa Senhora dos Remédios, que ele benzeu, e pediu que rezássemos e testemunhássemos com a nossa vida a ternura do Evangelho que se aprende olhando para Jesus e para Maria.
  1. Dá-nos, Senhor, um «coração de carne». De nada vale, não serve para nada, continuar a ostentar um «coração de pedra». Não vive, não respira, não ama. Precisamos, de facto, meus irmãos e irmãs, de mais amor, mais amor, mais amor. Mais ternura, mais ternura, mais ternura.

 

Lamego, Nossa Senhora dos Remédios, 08 de setembro de 2015

+ António, vosso bispo e irmão

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