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Pe. Manuel Esteves Alves | Bodas de Ouro Sacerdotais

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À conversa com… Cón. Manuel Esteves Alves

Dando continuidade ao nosso propósito de dar vez e voz aos sacerdotes que celebram, este ano, as bodas de ouro de ordenação, aqui ficam as palavras do Cónego Manuel Esteves Alves, pároco de S. João de Fontoura, na zona Pastoral de Resende.

Olhando para o caminho já percorrido, que etapas, pessoas ou situações gostaria de destacar?

Sendo a nossa vida um dom gratuito e precioso de Deus, todas as nossas etapas são um motivo a destacar: com amor e gratidão, porque imerecidas; com regozijo e paz, sempre que vividas e atingidas de acordo com os Seus desígnios; com humildade e pesar quando reconhecemos que muitas vezes falhámos e ficámos aquém dos Seus planos a nosso respeito.

Daí que tenha de destacar, primeiramente, o dia 24 /01/1941 em que o Senhor me abriu os olhos para este mundo depois de, certamente, me ter misteriosamente assinalado, escolhido e chamado. Uma infância marcada pelas dificuldades e comuns privações geradas pela 2ª Grande Guerra… No entanto feliz e sem sobressaltos. Era o filho mais novo de uma série de doze, dos quais sete já estavam no número dos anjos.

Depois, sentindo o misterioso apelo do Senhor, foi a entrada para o Seminário em 18/10/1953 e toda uma caminhada de 12 anos comum à dos demais colegas de jornada, com as normais lutas de ascensão e entrega, alguns esporádicos momentos de desalento mas sempre confortado pela força do Senhor e a ajuda e proteção de Sua Mãe a incitar à confiança e generosa persistência no caminho, horas grandes de fervor e reconfortante regozijo…

Tinha iniciado em outubro de 1961 o Curso Teológico inaugurando o Novo Seminário Maior. Concomitantemente tinham começado, nesse tempo, as guerras contra o terrorismo nas antigas colónias portuguesas e, em out.º de 62, o Concílio Vaticano II, convocado pelo bondoso papa S. João XXIII. Foram anos de alvoroço e confiante expectativa da profeticamente por ele anunciada “entrada de uma lufada de ar fresco do Espírito” numa Igreja fortemente marcada pelo rigor da disciplina, predominância do Direito sobre a Moral, enclausuramento do sagrado no brilho hermético duma liturgia esplendorosa mas distante da compreensão do povo que “assistia” mas não participava nem compreendia uma língua oficial que era um “mistério” para a maioria, uma apologética logicamente estruturada mas avessa ao diálogo, ausência de horizontes ecuménicos e da ansiada abertura ao mundo contemporâneo do século em que vivia. Uma máquina que parecia emperrada e parada no tempo, debruçada sobre si e escudada no castelo silogístico da verdade que pregava, vigilante sobre o que se escrevia e sempre com um somatório de penas e censuras ao indício de qualquer desvio.

Foi na vivência da dor, sangue e lágrimas pelas vidas de tantos jovens da nossa idade ceifadas nas guerras do nosso ultramar e a santa euforia das anunciadas reformas conciliares que chegámos à ordenação sacerdotal em 15/08/1965.

A 18/09/65 tomei posse das paróquias de Vila Seca, Santo Adrião e Coura (esta, por uns escassos meses), no concelho de Armamar. Foi o início e o campo de ensaio de toda uma época de frescura das novidades e mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II e a alegria sacerdotal intensa na aplicação e concretização dessas medidas na pastoral dessas parcelas do povo de Deus, onde sempre me senti acarinhado. Recordo e destaco o acentuado entusiasmo dos crentes na vivência participativa da liturgia eucarística em vernáculo, num renovado ritual mais simples sem perder a profundidade do sentido e com a valorização dos cânticos onde os salmos tomaram a preferência.

Em 22 /09/1968 deixei a paroquialidade dessas terras, por ter sido chamado pelo Senhor Bispo D. João para professor e prefeito no Seminário de Resende. Aí me entreguei com entusiasmo à dignificante missão de formador dos jovens candidatos ao sacerdócio até setembro de 2000. Foram 32 anos de serviço, entre os quais 24 como vice-reitor, que eu considero o mais espiritualmente gratificante, embora também, por vezes, humanamente espinhoso, como é compreensível. Tive a graça de o Senhor me chamar a idealizar, projetar e concretizar toda a reconstrução do Seminário, obra na qual foi preponderante todo o apoio do Sr. Arcebispo D. António de Castro na angariação dos meios financeiros para a sua execução.

Nesses 32 anos quero destacar a colaboração generosa, eficaz e sacrificada de muitos colegas formadores e colaboradores de equipa e assinalar que, entre as centenas de jovens que passaram pelo Seminário de Resende nessa época, chegaram ao sacerdócio umas seis dezenas. Esta constitui, sem dúvida, para mim, a maior alegria de padre e espero que o Senhor faça, através deles, na Sua Igreja o que eu não fiz como Ele queria e, por eles, me perdoe o que eu deixei de fazer como Ele merecia.

Continuei como professor que era e diretor pedagógico no Externato D. Afonso Henriques onde os nossos seminaristas recebiam e recebem a formação de estudos curriculares. E tendo-me aposentado em 2007, sou, já desde Setembro de 2005, pároco de S. João de Fontoura, embora já há alguns anos aí trabalhasse como colaborador pastoral. Certamente haveria mais eventos a assinalar, mas deixemos que os outros nos julguem. Como dizia alguém, somos sempre e só aquilo que Deus sabe de nós, os outros nem sempre desconhecem e nós quase sempre ignoramos. Como “de velho se torna a menino”, também Deus quis que nesta caminhada, ao entardecer da vida, voltasse à minha infância de sacerdote pároco. Só que agora os tempos e os desafios são outros…

Atento ao mundo em que vive e à Igreja que ajuda a formar e a crescer, que desafios a ter em conta?

Hoje, como disse, os tempos são outros e os desafios são enormes. O mundo e as mentalidades evoluíram assustadora e vertiginosamente nos finais e viragem do século. A televisão, o computador, a internet e o telemóvel e suas variantes, com todos os seus recursos tecnológicos, entraram em todas as casas, acompanham as bolsas e mãos do maior ao menor dos mortais e, pior que isso, ocuparam-lhes a mente e o coração. Acresce ainda que arrostamos com as consequências do mau uso dos direitos e liberdades democráticas. Se há um resto de cristãos conscientes e bem formados, há uma grande parte que já não ouve a Igreja e seus padres. Uns, porque se deixaram influenciar pelo materialismo e comodismo da vida e sentem que já não precisam dos conselhos e práticas que a Igreja lhes propõe e, por isso, deixaram de frequentar os templos; outros vão, mas poucos nos ouvem e sobretudo grande parte das crianças e dos jovens, pelos motivos apontados, perdeu a faculdade de concentração. Claro que só me refiro aos exageros e maus usos destes meios que são excelentes quando ao serviço do bem e da cultura e que a Igreja, felizmente, tem aproveitado e aconselhado os sacerdotes a fazê-lo. Mas, se as pessoas não aparecem e a grande maioria massificada perdeu a faculdade de escuta…, a Nova Evangelização tem de voltar às origens e a Igreja tem de ir ao encontro das pessoas –“Ide, pois, e ensinai todas as gentes…”(Mt 28,19). É preciso ir… é preciso fazer discípulos… é preciso fazer  despertar vocações… Mas, por vezes, perante o abandono rural e o êxodo provocado pela emigração, a assustadora diminuição da natalidade e o envelhecimento das nossas comunidades,  fico perplexo e com a tentação de perguntar: dentro de alguns anos teremos entre nós pessoas a quem anunciar a Boa Nova? E haverá futuramente suporte económico nestas diminutas e envelhecidas comunidades para poderem garantir a sobrevivência dos seus padres? Claro que não podemos deixar morrer a esperança e ficar de braços caídos, porque Deus nunca abandona a Sua Igreja e os que a servem.

Que palavra gostaria de deixar aos sacerdotes mais jovens da nossa Diocese?

Santo Agostinho, nos meados do séc. V, perante a invasão dos bárbaros nórdicos que tudo parecia devastar no mundo cristão, afirmava, confiante, que estava a nascer um mundo novo para a Igreja de Cristo. A história repete-se. Na era da globalização, que deveria ser de riqueza cultural e humana, diálogo, compreensão e paz, instala-se a idolatria do dinheiro, o desprezo e atropelos das leis naturais e divinas, a perigosa ideologia do género, o indiferentismo religioso sob a falsa desculpa da tolerância, os escândalos dentro da própria igreja, a criminalidade, o terrorismo, as guerras, as perseguições religiosas, os genocídios, as crises financeiras e a fome.

Por isso, a palavra que gostaria de deixar aos jovens sacerdotes é que, apesar deste ambiente de podridão, corrupção e escândalos, de tentação de frustrações e desencanto na eficácia da nossa pregação do Evangelho, devemos sentir que estamos num século de purificação e de prova e, por consequência, vivemos na época mais bela da Igreja de Cristo, porque nunca na sua história houve um século de tão grande número de mártires e santos, desde as vítimas do nazismo e dos holocaustos, do comunismo ateu e das perseguições e genocídios por motivos religiosos, raciais ou políticos, do terrorismo generalizado e filho de todos os fundamentalismos. É o século de Fátima e do cumprimento das suas anunciadas promessas. Até os ansiados frutos do diálogo ecuménico parecem estar à espreita. Nunca um papa elevou aos altares tantos santos como o fez S. João Paulo II. E, nisto, os seus sucessores seguem-lhe a esteira. Nunca a Igreja contou, a par de tanto indiferentismo, com tão grande elite de leigos empenhados e comprometidos com a causa da evangelização e o exercício da caridade cristã. Vamos ser nós a desistir perante as dificuldades? É missão do pastor ir à frente e dar a vida pelas suas ovelhas (Jo 10,11). O Senhor diz-nos que “uns são os que semeiam e outros os que ceifam”(Jo 4,35-38) Nunca a história da Igreja deixou de passar por crises e o Senhor prometeu: “Tende confiança! Eu venci o mundo”(Jo 16,33). Sejamos, pois, sacerdotes fiéis, chamados a ser santos e vitoriosos com Ele. Confiemos na Sua Misericórdia e ajuda, porque Ele nunca falta e, como sempre se repetiu, o sangue de tantos mártires não pode deixar de ser semente de novos cristãos.

in Voz de Lamego, n.º 4312, ano 85/25, de 5 de maio de 2015

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