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SEMANA SANTA | A passagem pela morte fez florir a vida

A Semana Santa é a “grande semana”, não porque tenha mais dias que as outras, ou porque os seus dias tenham mais horas, mas por causa da grandeza e da santidade dos mistérios que nela celebramos (S. João Crisóstomo). Um tempo ritmado pelos três últimos dias terrestres de Jesus, mas que começa com o Domingo de Ramos.Agony_in_the_Garden

Por amor de Deus e dos homens

Jesus avança humildemente para Jerusalém (o pequeno jumento sobre o qual se faz transportar expressa esta humildade). Na viagem não está só. Alguns encorajam-no, cantando “Hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor” (Sl 118, 26). Outros agitam ramos e estendem capas pelo caminho. Todos afirmam que Jesus é importante para eles, porque n’Ele encontram respostas e fundam a esperança. O amor de Jesus por Deus e pelos homens toca-os profundamente…

Mas se Jesus é admirado por alguns, outros estão incomodados… A partir do momento em que coloca o homem à frente do sábado, o amor à frente da lei, a oração à frente do respeito pelos ritos e sacrifícios… Jesus desconserta e escandaliza muitos. Uns tantos vão ocupar-se em dar-lhe a morte.

No dia de Ramos lembramos o belo acolhimento que a multidão reservou a Jesus. Também nós vamos à igreja com ramos verdes e cantamos a nossa alegria, ao mesmo tempo que meditamos na Paixão de Jesus, em tudo o que sofreu por Amor de Deus e dos homens.

Servir e amar até ao fim

Jesus sente que a morte se aproxima. Poderia fugir, retratar-se, esconder-se… Mas seria renegar tudo quanto havia sido a beleza e a profundidade da sua vida! Por outro lado, a sua confiança, a sua comunhão, o seu amor por Deus e pelos homens são tão grandes que ele não pode senão continuar a protagonizá-los livremente até ao fim, até dar a sua vida.

Na tarde de Quinta-feira Santa reúne-se com os seus amigos à volta de uma mesa para uma última refeição. No decurso desta, vai exprimir por palavras e por gestos, o sentido profundo da sua vida (o que conduziu a sua existência). Durante esta refeição, o povo judeu fazia memória das maravilhas que Deus lhe havia feito. Jesus não esquece isso: agradece a Deus pelas suas benesses, pela sua generosidade infinita e vai mais longe: “Enquanto comiam, tomou um pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo ‘Tomai: isto é o meu corpo’.” (Mc 14, 22).

Jesus partilha o pão e o vinho e apresenta-os como seu corpo, a sua vida que escolheu livremente entregar nas mãos do Pai: “Ninguém ma tira, mas sou eu que a ofereço livremente” (Jo 10, 18), a fim de que os homens saibam com que amor ama Deus e os seus irmãos; a fim de que os homens saibam com que amor Deus os ama, porque “ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

Jesus revela a plenitude de uma vida com Deus e encoraja os seus amigos a porem-se a caminho: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Pôr-se a caminho para o Amor, é bom! Mas também é difícil. É preciso aprender a caminhar ao ritmo de cada um, sobretudo dos mais pequenos! É preciso tornar-se, pouco a pouco, o “humilde servidor”… Jesus dá-nos o exemplo ao lavar os pés dos seus amigos.

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Estar com e não acima

Jesus coloca-se de joelhos diante dos seus amigos. Através deste gesto mostra-lhes a importância, a grandeza e a dignidade que têm aos olhos de Deus: “Visto que és precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo…” (Is 43, 4). Mas Jesus diz-lhes que eles também são capazes de Deus, capazes de amar, capazes de melhorar e de crescer para uma maior humanidade. Neles dorme um tesouro infinito que pede para não ser esquecido, para crescer, ser partilhado para se multiplicar… A partilha conduz à abundância.

Jesus lava os pés dos seus amigos. O gesto diz-nos que amar é aceitar colocar-se ao nível dos mais pobres, dos mais humildes, dos mais pequenos: “O que for mais maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve” (Lc 22, 26). Trata-se de apreender a caminhar ao ritmo do mais pequeno, do mais pobre; estar com ele e não acima dele. Jesus diz-nos que amar é aceitar servir sem esperar algo em troca, aceitar tornar-se dom de si mesmo, em total gratuidade.

Jesus abaixa-se diante dos seus amigos, toma conta de nós e convida-nos a imitá-lo. Temos necessidade de Deus para fazer crescer o amor em nós e Deus necessita de nós para fazer avançar o amor sobre a terra. E vemos claramente: amar é difícil. Mas no caminho temos sempre uma ajuda: a oração, a certeza da presença de Deus a nosso lado.

Abandonar-se nas mãos do Pai

Apercebemo-nos do desejo de Jesus em afastar-se do difícil caminho que se apresenta: “A minha alma está numa tristeza mortal” (Mc 14, 34). Jesus sente o sofrimento que se aproxima. Vemo-lo triste, angustiado, com receio. Claro que poderia fugir, já que ainda tem tempo. Mas fugir seria renegar a riqueza, a fecundidade, a felicidade e deixaria de viver verdadeiramente; seria viver uma vida de morte, estéril, inútil…

Jesus já deu muito a Deus e aos homens. Resta-lhe dar-se a si mesmo. Para isso é preciso morrer, deixar a terra e as suas maravilhas, deixar tudo quanto tentou construir e pôr em marcha, deixar as pessoas que amou… e tudo isso faz sofrer profundamente. Então reza ao Pai : “Tudo te é possível; afasta de mim este cálice” (Mc14, 36).

Sim, o Eterno pode sempre intervir. Pode falar aos corações abertos, prontos a acolher; pode falar aos sumos-sacerdotes, a Pilatos; pode inspirar-lhes uma outra solução, ajudá-los a reagir, a mudar, a levantarem-se e a porem-se a caminho para uma outra vida… Mas os corações estão endurecidos, e os mais amados – os discípulos – estão adormecidos, como que anestesiados, demasiado fracos, receosos de se levantarem…

Existirá ainda um coração que vela? Jesus sabe bem que os corações endurecidos não podem acolher a luz de Deus e que permanecerão na obscuridade. Jesus vê bem os corações adormecidos dos seus amigos, corações que não conseguem permanecer em oração. Apesar de tudo, Jesus decide continuar o seu caminho: abandona-se, plenamente, com total liberdade e confiança nas mãos do Pai: “Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc 14, 36). Não há vigilantes para acompanhar Jesus… Mas com o tempo Deus saberá acordá-los.

Jesus deixa-se prender no jardim das oliveiras. Conduzem-no até ao sumo sacerdote que o interroga…

Deus revela-se discreto

Jesus é conduzido até Pilatos (representante do imperador romano) que o condena a morrer na cruz. Alguém que passava, Simão de Cirene, ajuda-o a levar a cruz até ao Golgota, onde é crucificado.

Neste dia de Sexta-feira Santa, Jesus não sofre apenas no corpo, mas também no seu espírito. À sua volta não restam senão algumas mulheres… Onde estão todos os seus discípulos? Onde está a multidão que o aclamava algum tempo antes? Onde está o Pai amado e todo o amor que lhe concedeu? “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

Deus cala-se… parece ausente… Mas não será apenas uma certa imagem que fazemos de Deus que está ausente? A imagem do vendaval que afasta os obstáculos do caminho… a imagem da tempestade que destrói todos quanto se lhe opõem… a imagem do poder que força o coração dos homens para os obrigar a mudar, a levantarem-se…

Hoje, Deus revela-se discreto… Ele é humilde presença que acompanha, que leva, que ajuda a ir até ao fim do caminho… O amor faz-se silencioso, tal como o primeiro sopro anunciador da primavera.

Na Sexta-feira Santa Jesus morre na cruz e o seu corpo é depois deposto no sepulcro.

O grão morre e dá muito fruto

Ao longo de Sábado Santo, oportunidade para ler e meditar o texto do pequeno grão de trigo que, morrendo, dá muito fruto. À noite, os cristãos reúnem-se na igreja para proclamar e cantar a sua fé em Jesus ressuscitado!

Sobre o círio descobrimos uma cruz, duas letras (o alfa e ómega) e os quatro números do ano. A letra “alfa”, primeira letra do alfabeto grego, diz-nos que Deus está no começo de tudo; a letra ómega, última letra do alfabeto grego, diz-nos que Deus é o fim de todas as coisas. A cruz fala-nos de Jesus, da sua vida oferecida por amor.

Uma luz que se acende e nos fala de Jesus, que arde serenamente e ilumina, aquece e purifica. E diz-nos que Jesus está vivo. Ressuscitou! Ele é o nosso guia, a nossa luz; aquece as nossas vidas, escuta-nos e conforta-nos. Ele purifica-nos. Acender uma vela no círio pascal significa que queremos viver a vida de Deus, queremos acolher o seu amor para o propagar à nossa volta.

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Alegria da Ressurreição

O Domingo de Páscoa é um dia de alegria! A boa notícia de que Jesus está vivo propaga-se. O túmulo está vazio. As mulheres estão emocionadas, tremem de medo e baixam a cabeça. Vivem na intimidade, no mais profundo de si, uma experiência que as ultrapassa, as inquieta. Uma luminosidade instalou-se nelas e uma certeza apoderou-se delas: Deus agiu! “Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos”.

As mulheres saem, afastam-se do túmulo (do domínio da morte, do desespero, do passado) e guardam a luz no seu coração… E têm medo de libertar tal luz, de falar… Quem poderá acreditar nelas?

Ninguém testemunhou directamente a ressurreição, mas alguma coisa aconteceu a estas mulheres e a estes homens. Qualquer coisa que transformou as suas vidas, que os motivou a ir pelo mundo fora: acolheram a manifestação de uma presença que não reconhecem imediatamente como sendo a de Jesus (Emaús, Lc 24). Esta manifestação de presença pode tomar a forma de uma visão, de uma palavra murmurada, de uma recordação que regressa, de uma experiencia íntima, de um gesto que mexe com o coração, de um espanto que questiona, de um fogo que queima, de algo pequeno mas que enche, desarma, emociona e maravilha! Algo que toca, que fala fortemente à alma, que a envolve, a mergulha no infinito, a projecta para o céu, a empurra para os homens… O anjo que fala às mulheres convida-as a levantarem-se, a não se fecharem no desespero, a não ficarem voltadas para o passado, para a morte do túmulo, mas a caminhar para a vida, a comunicar o fogo que as queimou, a soprarem aos homens o divino que receberam (Mt 28, 7).

Para continuar…

O ressuscitado permanece presente naqueles que lhe abrem a porta do coração e cada um pode estabelecer uma relação com Ele. A abertura do coração alarga a vida, ajuda-a a crescer numa outra dimensão, condu-la sob uma outra luz, transfigura e atrai para uma vida nova.

“A morte é grande pela vida que faz surgir” (Durkheim). A passagem pela morte fez florir a vida sobre a terra.

 

JD, in Voz de Lamego, n.º 4307, ano 85/20, de 31 de março de 2015

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