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Archive for 04/03/2015

2.ª Conferência Quaresmal de D. António: A chama que chama

Conferencia na Sé

Rumo à ternura de um coração atento e fraterno

A chama que chama

A igreja-catedral acolheu os participantes para a segunda conferência quaresmal protagonizada pelo nosso bispo, D. António Couto, que, nessa manhã, ali presidira à Eucaristia, encerrando a visita pastoral que, na última semana, havia feito a esta paróquia de Nossa Senhora da Assunção da Sé.

Se a figura do profeta Jonas nos havia acompanhado no domingo anterior, nesta semana todos foram convidados a olhar para Moisés, esse judeu africano salvo das águas do Nilo graças ao amor da mãe, à vigilância da irmã e ao engenho maternal na feitura de uma cesta resistente. Uma cesta que atravessa as águas, qual arca que protege a humanidade do dilúvio, e leva o seu ocupante para uma nova margem, um mundo novo, um tempo de graça, deixando para trás o velho, o que estorva, a desgraça…

Sob o olhar atento de Deus

Tudo acontece sob o olhar atento e carinhoso de Deus que vela e permite que se passe de um lado para o outro, da dureza de um coração empedernido para a ternura de um coração atento e fraterno. Porque, para o crente, não existe ocaso, mas providência: Deus vela pelas suas criaturas.

E se o olhar de Deus nos protege e tranquiliza, a verdade é que também nos interpela e envia: é preciso velar pelo outro. Por isso, o tempo da Quaresma é uma oportunidade para o cristão exercitar a proximidade, tornando-se o irmão e a irmã que velam e cuidam do outro, ajudando-o a atravessar a dificuldade e a manter-se à tona. Cada cristão pode e deve ser para o outro o “apoio firme e necessário”, concretizando, no mundo de hoje, o olhar paternal e maternal de Deus.

Viver e construir a fraternidade é o desafio de hoje e de sempre, enfrentando um mundo egoísta e obscuro. E como é urgente o testemunho para sair deste ocaso e deixar a “lareira sem lume”, onde já só há cinza que não aquece nem se torna referência no frio e no escuro! “É bom e belo sentir o olhar dos irmãos e formar família; é bom e belo sentir a mão do irmão e viver em comunhão”.

A missão do cristão é “atravessar a indiferença, a solidão, o vazio e fazer brilhar as cores do céu”, contrariando o sentimento de orfandade sem luz e sem esperança que experimentam os que vivem sem Jesus. A humanidade, indiferente e só, órfã de Deus, precisa da mão do irmão para chegar a Deus.

E este esforço não se concretiza sem proximidade. Por isso, diz-nos D. António Couto, “tens que te aproximar do outro para que ele te sinta como irmão”. Foi o que fez Jesus: desceu à humanidade, fez-se irmão, pegou pela mão, lavou o coração…

Uma chama que chama

A Sagrada Escritura oferece-nos o exemplo de Moisés que vive a sua vida em torno de uma missão: contempla os seus irmãos e o seu sofrimento, acerca-se de Deus e aceita ser enviado para conduzir o povo à terra prometida, quando apascenta o rebanho do sogro e, no Horeb, se encontra diante da sarça-ardente (Ex 3, 1-4). Moisés é capaz de ver o que outros não viram, graças ao olhar curioso e à ousadia para afastar-se do habitual, permitindo-se contemplar a novidade. É este “olhar de criança”, ávido pela novidade, curioso e simples que se deixa encantar e se deslumbra com os porquês que Jesus nos recomenda.

Tudo começa numa “chama que chama” e à qual Moisés responde: “estou aqui”. O lume ardia no coração de Moisés, tal como no coração dos que caminham desanimados para Emaús (Lc 24, 13-35) ou no do profeta Jeremias (Jr 20, 9). Um lume que arde interiormente, a que não se pode fugir porque é constitutivo da pessoa. Uma sarça que continua a alimentar-nos nesta travessia quaresmal, quando nos decidimos a queimar as gorduras do egoísmo, e nos devolve a pureza infantil.

Não vivemos na orfandade

Tal como ontem, Deus olha a realidade que atormenta o seu povo (Ex 3, 7-8) e liberta-o, guiando-o para uma terra nova, uma nova margem. Eis-nos diante de um “Deus em saída”, parafraseando o convite papal à Igreja, que vê, ouve, sente e vem visitar-nos “no nosso chão”. Deus interessa-se por nós e, por isso, não vivemos na orfandade.

E diante das dificuldades observadas e clamores, Deus não responde alguma coisa, mas alguém. Partindo desta evidência, fácil se torna concluir que, também hoje, diante do sofrimento, da escuridão, do vazio, da falta de sentido para a vida, diante da indiferença, num mundo sem Deus, a resposta divina continua a não ser alguma coisa “mas alguém”. A resposta somos nós, os enviados por Deus a este mundo desencantado que vive na solidão e na escuridão e que precisa de um irmão para sair da indiferença.

E o nosso bispo concluía com um voto, em jeito de prece: “Que o Senhor da Messe nos encontre comprometidos, comovidos, fiéis e disponíveis” para ajudar o outro a chegar à nova margem, a chegar a Deus!

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, n.º 4303, ano 85/16, de 3 de março de 2015

MEMÓRIA E LIBERTAÇÃO | Editorial Voz de Lamego | 3 de março

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A edição desta semana dá grande destaque à Visita Pastoral de D. António Couto à cidade de Lamego, com as duas paróquias, Sé e Almacave. Destaque importante também para a SEMANA NACIONAL DA CÁRITAS, 2 a 8 de março, com entrevista à Presidente da Cáritas Diocesana de Lamego. Como nos tem habituado, a Voz de Lamego traz uma diversidade imensa de reflexão e notícias, com o comentário à liturgia de domingo, as intervenções do papa Francisco. Para já o Editorial do Pe. Joaquim Dionísio, Diretor do nosso Jornal Diocesano:

MEMÓRIA E LIBERTAÇÃO 

A história é simples. Uma senhora doente, internada no hospital, queixava-se em alta voz dizendo estar cheia de sede: “Ai que sede que eu tenho, que sede que eu tenho”. Alguém se disponibilizou para ir buscar água. Bebeu e ficou saciada. Quando os outros pensaram que agora iria sossegar e deixar descansar os demais, começou novamente: “Ai que sede que eu tinha, que sede que eu tinha”!

Não é salutar continuar a “sofrer as dores de ontem”. Como escreveu alguém, “a infelicidade alimenta-se das memórias” e “as frustrações do passado assassinam as esperanças”. Há feridas que se mantêm porque não há disponibilidade para deixar sarar e cicatrizar…

Apesar do olhar se voltar para avaliar o percurso e da consciência assumir que poderia ter sido melhor, a Quaresma é, para o crente, um convite para se voltar para diante, para a meta, para a vida. Porque a misericórdia do Senhor fundamenta e alimenta-lhe a esperança, apesar dos limites e imperfeições de ontem e de viver num hoje nem sempre cómodo ou isento de riscos.

A caminhada quaresmal surge como oportunidade, também, para a libertação do que estorva o ritmo, desvia o rumo e ensombrece a esperança. Daí o insistente apelo à Reconciliação. Porque a confissão dos pecados, acompanhada do arrependimento e da conversão, é fonte de libertação. Viver em função de sentimentos menos bons, de recordações menos alegres ou de acontecimentos e decisões menos simpáticas é perturbador e diminui a alegria.

Quanta serenidade e harmonia no rosto, nas palavras e nos gestos de quem sabe, todos os dias, compreender-se como peregrino, encarando a vida, com o bom e o menos bom, como viagem transitiva que conduz ao definitivo, Deus!

 in Voz de Lamego, n.º 4303, ano 85/16, de 3 de março de 2015