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RETIRO DO CLERO | DOM a assumir e a valorizar

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O sacerdote é um dom que importa assumir e valorizar

A Casa de S. José acolheu cerca de quatro dezenas de sacerdotes da nossa diocese para o seu retiro anual. Orientado por D. José Traquina, bispo auxiliar de Lisboa, o exercício espiritual decorreu entre o final da tarde do dia 06 e o fim da manhã do dia 09. Na impossibilidade de tudo reportar, aqui ficam algumas notas sobre o muito que se ouviu.

O retiro é sempre um tempo privilegiado de encontro, proporcionado pelo silêncio que impera, pela meditação orientada que se concretiza e pela oração mais intensa que cada um protagoniza. Trata-se de viver de forma diferente alguns dias do ano, uma pausa no ritmo habitual e uma oportunidade para escutar Deus.

Orientou o retiro D. José Traquina, um “jovem” bispo que a Igreja ordenou há poucos meses e que até então vivera os seus trinta anos de sacerdócio em diferentes paróquias e no acompanhamento de seminaristas. E foi a partir desta experiência pessoal, apoiado na Sagrada Escritura e tendo por perto alguns documentos eclesiais que, de forma clara, serena e cativante, D. José nos falou do sacerdócio como dom.

O grupo dos participantes era heterogéneo, desde padres ordenados há um ano até aos que foram ordenados há mais de meio século, testemunhando a comunhão. Anualmente, todos os sacerdotes são convidados a “retirarem-se” para melhor servirem o Povo de Deus, porque é uma oportunidade de reencontro com o Senhor da Messe e de recuperar forças e ânimo. Nos últimos anos, a diocese tem proposto uma data e um lugar para o retiro, mas alguns sacerdotes vivem-no noutros locais e em datas que melhor lhes convém.

No início e no fim do retiro deste ano tomou a palavra o Padre João Carlos Morgado, Pró Vigário Geral, para acolher e agradecer a presença, as palavras e o testemunho do nosso conferencista. De destacar também o trabalho do Padre José Alfredo Patrício, que elaborou um Guião para a oração e o canto e o disponibilizou a todos. E, por último, uma referência também ao acolhimento dos responsáveis da Casa de S. José, pelo cuidado com todos e pelas condições oferecidas.

Valorizar e assumir

Cada sacerdote é um dom de Deus ao mundo, à Igreja, à comunidade cristã. E valorizar o dom é reconhecer a acção e história de Deus na vida do padre, na sua ordenação e no seu ministério.

Mas é também assumir-se com alegria ao serviço de um povo. É o Senhor que escolhe, chama e envia. E nunca é demais fortalecer esta identidade e cultivar este dom.

Deus escolhe-nos no amor e continua a acompanhar-nos, sobretudo nas tribulações e tempestades (Lc 8, 22-25), porque está atento a cada um e se apresenta como experiência de bonança para todos.

Palavra e oração

O padre “vive da Palavra”, mas deve empenhar-se também em ser “alguém de palavra”. Porque a palavra é um prolongamento daquele que a profere, projectando-o para além de si mesmo, partilhando o que é, o que pensa ou deseja.

A capacidade humana de utilizar a palavra distingue o homem na criação, aproximando-o de Deus, com quem se assemelha. Mas a palavra é importante se está ao serviço da verdade e do bem. E “falar com o coração” é falar amando os ouvintes, os destinatários.

A Palavra de Deus é criadora, informativa e transformadora. E esta missão continua a ser cumprida através da palavra da Igreja, onde assumem particular destaque os ministros ordenados. E cada um se pode e deve santificar através da vivência coerente da Palavra de Deus. Uma vivência coerente que confere autenticidade e autoridade ao que a protagoniza, tal como o verificamos em tantos episódios da vida de Jesus e na vida de tantos santos.

Por outro lado, a oração transfigura e purifica o que a assume na vida com regularidade e paixão, marcando uma dimensão individual da fé que favorece a comunhão. Aquele que muito reza mais facilmente estará em comunhão com os outros.

Pureza do coração

Ninguém se realiza na desordem ou no caos. A pureza do coração é essencial, porque é a partir da consciência individual que a pessoa se forma e que a humanidade obtém a harmonia.

A vivência da fé ou o exercício do ministério não são um mero cumprimento de preceitos, mas um abrir do coração e uma contínua atenção ao interior. E esta atenção e esta vivência exigem prudência e sabedoria, já que o orgulho impede uma vida espiritual saudável e o cumprimento da missão.

Por outro lado, o atingir dessa forma de estar e de servir implica também a presença da comunidade, já que um homem isolado se torna mais vulnerável. Nesse sentido, a presença e participação na vida do presbitério é geradora de vida e garantia de comunhão.

Descer para subir

O objectivo de toda a vida cristã é identificar-se com Cristo, o que implica uma “luta” contínua para vencer situações e tentações que podem afastar da meta e do seguimento do Mestre.

Como chegar até Deus? Descendo com o Cristo, tal como no-lo recordou Bento XVI. O próprio Cristo desceu para servir (Fil 2, 9), numa descida até à morte. Dito de outra forma, a subida para Deus verifica-se na descida para o serviço aos outros. Subimos para Deus quando o acompanhamos nesta descida.

Olhar com compaixão

O nosso tempo também se caracteriza por um certo receio em assumir compromissos e uma pertença à Igreja. Por outro lado, testemunha-se uma grande ansiedade em redor do ter, o que leva a que o consumismo se assuma como meio para uma desejada felicidade.

O padre é convidado e enviado para olhar para todos com compaixão, tal como fez Jesus Cristo. Mas para imitar o Mestre, o padre deve evitar deixar-se atrapalhar pelos bens materiais ou apresentar-se obstinadamente preso nas suas ideias, envolto em orgulho, que podem não coincidir com as ideias de Cristo. Assim aconteceu com Judas: o seu plano não previa um Messias “manso e humilde de coração”, disposto a morrer sem oferecer resistência. É verdade que, às vezes, o padre falha. Tal como falhou Pedro. Mas este, porque não tinha planos próprios, é capaz de reconhecer o erro e chora, arrependido, confessando o seu amor ao Mestre. Pedro tem consciência da fragilidade, não a nega, mas tem também disponibilidade para avançar.

Serviço da presidência

A ordenação habilita o padre para abençoar, para mostrar Cristo aos outros. E é através destes seres, frágeis e limitados, tantas vezes pecadores, que Cristo edifica a Sua Igreja.

A missão do padre é dar glória a Deus e contribuir para a santificação do mundo, identificando-se com Cristo e promovendo o encontro com o Senhor (evangelização).

No culto que presta, mais do que oferecer coisas, o padre é convidado a oferecer-se a si mesmo, em total liberdade, porque gosta de estar onde está e de fazer o que faz. O importante será fazer coincidir a liberdade com o dever: devo estar aqui e estou aqui livremente.

E nesta missão, o padre assume e protagoniza, também, uma vocação pastoral para presidir, uma capacidade para estar em nome de Cristo diante de uma comunidade. E, neste pormenor, surgem dificuldades. Quando o padre não consegue exercer essa presidência, com espírito de serviço e paciência pastoral, pode tornar-se alguém menos feliz e realizado na sua missão, não contribuindo para a serenidade dos que lhe são confiados.

Referências maiores

Cada um de nós é uma resposta livre ao convite de Deus: reconhecemo-nos como dom e obra de Deus. E na resposta ao Senhor, vivendo o seu sacerdócio, cada padre é convidado a deixar-se orientar por um grande amor a Jesus Cristo, à Sagrada Escritura, à Igreja e a Nossa Senhora.

Diante de Cristo que chama sem cessar e ama pacientemente todos e cada um, a resposta deve ser responsável e amorosa. Porque se não existir amor, o padre pode cumprir uma missão, mas fá-la ao jeito de um funcionário e não de um vocacionado.

Por outro lado, o padre só poderá alimentar outros com a Palavra de Deus se, antes, também ele ali procurar alimento. Porque ele é um ministro da Palavra, para ensinar e não para “ralhar”, para escutar e praticar o que crê e ensina.

Depois, o amor à Igreja, porque, tal como ensinou S. Cipriano, “não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe”. A Igreja que é mistério e continuação de Cristo, desígnio e iniciativa de Deus, que chama e forma, convidando à obediência. E será esse amor à Igreja que fundamentará e tornará presente a paciência pastoral que o padre precisa ter para acolher, propor, ensinar e corrigir.

Por último, Maria, a Mãe de todas as horas, a Senhora da prontidão que testemunha um fidelidade ímpar e se apresenta como intercessora de todas as horas.

A alegria

O Papa Francisco convida cada um a assumir a missão com a alegria que brota do Evangelho e da certeza de sermos amados.

Nesse sentido, a alegria do discípulo de Cristo não é resultado da diversão, da prenda recebida ou do momentâneo sucesso alcançado, mas é fruto de um encontro com Cristo. Um encontro que permanece no tempo, porque Deus me aceita tal como sou e me respeita, apesar dos meus limites.

Uma alegria que nos vem da certeza da ressurreição que anunciamos e celebramos, coincidindo com um sentimento de paz. Aliás, alegria e paz são a plenitude da vida.

Por último, uma alegria que expressa um sentimento de esperança, já que o encontro com Deus é sempre gerador de esperança.

Pe. Joaquim Dionísio, in VOZ DE LAMEGO, n.º 4296, ano 85/09, de 13 de janeiro de 2015

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