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BEATO PAULO VI: A IGREJA AO SERVIÇO DA HUMANIDADE

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No passado domingo, em Roma, a Igreja beatificou o Papa Paulo VI. Sucedendo a João XXIII, que convocara o último Concílio, coube a Paulo VI conclui-lo e, mais difícil ainda, pô-lo em prática. Para muitos dos nossos leitores, este Papa é recordado com alegria, lembrando a sua vinda a Fátima (1967) ou as suas viagens (esteve nos cinco continentes). Outros o recordarão como alguém que, depois das expectativas decorrentes da novidade conciliar, protagonizou ensinamentos e decisões que pareceram anular tal abertura.

Homem do mundo

Todos nós olhamos para as viagens papais como algo normal, mas é importante dizer que Paulo VI foi o primeiro Papa a apanhar o avião para ir ao encontro do mundo. A audácia papal permitiu-lhe olhar o mundo tal como era realmente e não apenas a partir da Igreja. Um mundo que se transforma continuamente e que se apresenta com as suas conquistas, os seus riscos e as suas oportunidades.

Entre os gestos de Paulo VI, destaque para a sua visita às Nações Unidas. Em pleno Concílio, num tempo em que as viagens eram mais cansativas e demoradas, apanha o avião em Roma e, numa viagem relâmpago, vai até aos Estados Unidos da América e permanece 13 horas em Nova Iorque, discursando para o mundo na Assembleia das Nações Unidas. Uma breve presença marcada por um discurso ouvido com atenção e que serviu, também, para apresentar a Igreja como instituição “perita em humanidade”, companheira na caminhada, não apenas para estipular regras, mas também para partilhar os debates, os diálogos e as dificuldades da transformação do mundo.

A acção de Paulo VI pretende mostrar uma Igreja que não se limita a pregar uma espiritualidade desincarnada, mas implicada nas transformações da sociedade. Como uma instância de diálogo e não uma instância dominadora que julga, em diálogo e, em certa medida, ao serviço do mundo.

Homem do diálogo

Um dos seus conselheiros, o filósofo francês Jean Guitton, aconselhou a escrever uma Encíclica sobre a “verdade”, mas Paulo VI ofereceu ao mundo, no dia 06 de Agosto de 1964, a Encíclica “Ecclesiam Suam”, onde o Papa mostra uma Igreja que aprofunda a consciência que tem de si mesma e uma Igreja que se oferece ao mundo no diálogo.

Diante de um mundo que se afastava de Deus e da fé, encara a abertura da Igreja como forma de se aproximar dos que não crêem e dos que não confiam no discurso eclesial. E é esta mesma disposição para o diálogo e para a importância de saber estar no mundo que marca o último grande documento conciliar, a constituição Gaudium et Spes.

Neste particular, será importante também referir o singular encontro de Paulo VI com o Patriarca Atenágoras, em Jerusalém, há 50 anos. Uma data assinalada pelo Papa Francisco na sua recente viagem a Israel. Em perspectiva, o diálogo ecuménico, procurando reencontrar a unidade eclesial perdida e sempre desejada.

O espírito contestatário do Maio de 68 que, entretanto, chega a todo o lado exigiu-lhe perseverança, mas também decisões difíceis, nem sempre bem acolhidas. Os que com ele conviveram mais de perto dizem que sofreu por não ter sido compreendido, ao testemunhar as derivas, as caricaturas até, da abertura da Igreja diante do mundo.

Homem do concílio

Eleito quando o Concílio já tinha concretizado a sua primeira sessão, foi grande o seu papel na concretização e conclusão do mesmo. Morrera aquele que o convocara e instalara- se um certo desânimo perante o ritmo e a aparente indecisão quanto ao rumo a seguir. O aparecimento de Paulo VI imprime novo ardor e as suas orientações revelam-se preponderantes para o avançar e concluir dos trabalhos conciliares.

Todos são unânimes em aceitar a grande influência de Paulo VI em documentos conciliares fundamentais como são Lumen Gentium e, em particular, Gaudium et Spes. Este último mostra o compromisso da Igreja na sociedade, num diálogo desejado e permanente, e é, certamente, muito devedor da acção e ensinamento de Paulo VI, cuja visão sobre o assunto já havia sido apresentada na sua primeira encíclica.

Não restam dúvidas de que o concílio, reunião de todos os bispos, foi inspirado e assistido pelo Espírito, mas também sabemos como é fundamental a abertura humana para que o divino se manifeste e d’Ele seja instrumento. Num encontro com tão grande diversidade de personalidades, culturas e sensibilidades há um mesmo Espírito, mas há também necessidade de estabelecer linhas de actuação e consensos. Porque a história desta reunião magna não se resume aos dezasseis documentos aprovados e difundidos. Há também uma história intelectual dos bispos presentes, marcados por uma mentalidade e por uma formação bastante clássicas e que, graças ao contributo de especialistas e teólogos, se alterou e caminhou de encontro a uma sociedade em mudança.

in VOZ DE LAMEGO, 21 de outubro de 2014, n.º 4285, ano 84/47

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