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NOSSA SENHORA DOS REMÉDIOS | Homilia de D. António Couto

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A IGREJA DE SANTA MARIA ONDE ELA NASCEU

 

  1. Neste dia 8 de setembro, o calendário litúrgico assinala a Festa da Natividade da Virgem Santa Maria. Dito por outras palavras: celebramos hoje o dia do nascimento de Nossa Senhora. Sem esquecer esta tonalidade festiva do aniversário natalício de Maria, a Diocese de Lamego, no âmbito deste Santuário e da cidade de Lamego que o envolve, tem motivos acrescidos para fazer subir os índices da sua alegria, pois celebra hoje também a Solenidade de Nossa Senhora dos Remédios, Padroeira principal da nossa cidade.
  1. Sendo a Padroeira principal da nossa cidade, Ela é também a Casa, a Mesa, o Pão, a Porta principal da nossa cidade. Ela é a Senhora da nossa cidade. Ela é a Mãe. Ela é o Coração. Ela é até, está bom de ver, o ganha-pão da nossa cidade. Ela é figura e porta-voz do essencial. Ela tem cumprido bem a sua missão de Padroeira, velando todos os dias por esta cidade, acolhendo aqui todos os que a ela acorrem com as suas dores e… com as suas flores. Ela tem honrado e dignificado o Padroado. Amados irmãos e irmãs desta nobre cidade, vamos ter de nos perguntar também se temos feito tudo o que devíamos fazer para honrar e dignificar a nossa Padroeira, figura e porta-voz do essencial, ou se andamos por aí perdidos e entretidos, figuras e porta-vozes do acidental.
  1. Queridos peregrinos, irmãos e irmãs, que hoje, vindos de perto e de longe, demandastes este Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, sede bem-vindos. Rezo para que encontreis aqui, no regaço maternal de Nossa Senhora dos Remédios, o alívio e o alento que procurais. Mas permiti, amados irmãos e irmãs, dado que passa hoje o dia do aniversário natalício de Maria, que vos convide a fazer comigo, agora mesmo, uma peregrinação ao local onde ela terá nascido. Estamos já na cidade santa de Jerusalém. Entrai comigo pela Porta oriental da cidade velha, chamada «Porta dos Leões», mas também chamada pelos cristãos «Porta de Santo Estêvão» [o seu martírio aconteceu ali nas imediações, fora da cidade], e pelos árabes e cristãos Bab Sittna Maryam, que significa «Porta de Nossa Senhora Maria».
  1. Acabados de entrar por esta «Porta de Nossa Senhora Maria», estamos no quarteirão muçulmano da cidade velha de Jerusalém, e estamos também no início da bem conhecida Via Dolorosa. Entrada a «Porta de Nossa Senhora Maria» e postos os pés na Via Dolorosa, vemos logo à nossa direita e mesmo à flor da Via Dolorosa, um grande edifício que transporta nas suas entranhas uma longa, dorida e bela história. Entrai então comigo no átrio desse edifício. Mal entramos, damos logo com os olhos na Igreja românica de Santa Ana, uma construção dos Cruzados, que remonta ao ano 1130, que os muçulmanos ocuparam em 1192, e não destruíram, pois a transformaram em escola corânica. O sultão turco otomano Abdul Megid doou-a ao Governo francês em 1856, após a guerra da Crimeia. E em 1878, o governo francês confiou-a aos cuidados dos chamados Padres Brancos ou Padres de África, em cuja posse e desvelo ainda hoje se encontra. Entrai comigo então na Igreja de Santa Ana, e cantemos ali uma Ave-Maria: primeiro, porque Santa Ana é, como sabeis, a mãe de Nossa Senhora, e é nesta Igreja austera, mas espaçosa, que a memória do nascimento de Maria é evocado; segundo, porque estamos na Igreja com a melhor acústica do mundo, e cantar ali é um privilégio; terceiro, porque com o nosso canto, à nossa maneira, manifestamos também a nossa comunhão com os sofridos cristãos palestinianos (e de todo o Médio Oriente), que hoje, rodeados por muitos peregrinos idos do mundo inteiro, celebram ali, ao jeito oriental, com explosiva alegria, a Festa da Natividade de Nossa Senhora.

  1. Descei agora comigo as escadas que conduzem à cripta que guarda várias grutas, numa das quais é venerado o nascimento de Nossa Senhora. Sim, este lugar assinala a casa de S. Joaquim e de Santa Ana, e o nascimento de Nossa Senhora. Aqui, neste humilde lugar, os primeiros cristãos se reuniam para celebrar o mistério do nascimento de Maria. A documentação midráshica e litúrgica popular e comemorativa (este género de literatura respeita sempre a «localização» dos acontecimentos), firme desde o século II, é unânime em assinalar o nascimento de Maria na colina de Bethesda [= «Casa do Amor»], imediatamente a norte da esplanada do Templo, num local próximo da piscina gémea de Bethesda ou Probática [«das ovelhas», onde eram lavadas as ovelhas que iam ser sacrificadas no Templo], onde Jesus curou o paralítico (João 5,1-2). Este lugar foi paganizado pelo Imperador Adriano (117-135). No século V, mas sempre antes do ano 427, os bizantinos construíram aqui uma bela e ampla Igreja, com o nome de «Igreja de Santa Maria onde Ela Nasceu». Digo antes do ano 427, porque, neste ano, o Imperador bizantino Teodósio II proibiu o uso, até então muito comum, de se ornamentar os pavimentos com Cruzes, porque achava indigno que se calcasse a Cruz de Cristo. Ora, a arqueologia encontrou vestígios do pavimento desta Igreja com Cruzes gravadas. Foi destruída pelos Persas em 614, foi ainda reconstruída, para ser destruída pelos muçulmanos em 1010, e não foi mais reconstruída. Quando os Cruzados chegaram a Jerusalém, em 1099, ainda reconheceram o local, cuidaram dele, assinalaram-no devidamente, mas optaram por construir por cima, num plano mais elevado, como já vimos, a Igreja de Santa Ana.
  1. Foi aqui, em Jerusalém, que desde os alvores do cristianismo, se começou a celebrar a Festa da Natividade de Nossa Senhora, que chegou depois a Constantinopla e se espalhou pelo Oriente. O Papa Sérgio I introduziu-a, no século VII, em Roma e em todo o Ocidente. A data de 8 de setembro foi fixada com referência à data da Dedicação pelo patriarca Juvenal da antiga Igreja bizantina de «Santa Maria onde Ela Nasceu». É bom sabermos, amados irmãos e irmãs, que, não obstante as inúmeras dificuldades, os cristãos, de século em século, continuamente, desceram a este lugar santo, muitas vezes arriscando a vida, para aí venerar a Virgem Santa Maria Onde Ela Nasceu.
  1. Entrai então outra vez no nosso Santuário de Nossa Senhora dos Remédios. Fixai bem o olhar em Nossa Senhora dos Remédios, e vede com o coração o seu regaço maternal, a sua dedicação total àquele menino que ternamente acalenta e amamenta. Já sabeis, meus irmãos e irmãs, que os profetas (ouvimos hoje a lição de Miqueias 5,1-4) cantaram aquela Mãe e aquele Menino, porque há muito os traziam no coração. E eu também sei que aquela Mãe sempre solícita, feliz e encantada, às vezes triste, tem lugar garantido no vosso coração, e o quadro com a sua imagem está seguramente colocado em vossa casa, em lugar de destaque, entre os quadros dos vossos familiares mais queridos. A mesma coisa fez Mateus, no bocadinho do Evangelho que hoje foi proclamado (Mateus 1,1-23), entregando-nos um belo colar cheiinho de nomes, que ele sabiamente entretece e leva até José, Maria e Jesus.
  1. Enquanto reparais bem na imagem de Nossa Senhora dos Remédios, que hoje nos vai acompanhar o dia inteiro, que amamenta no seu seio maternal o Menino Jesus, ouvi e meditai bem estas impressionantes palavras de Isaías: «Alegrai-vos com Jerusalém,/ rejubilai com ela todos vós que a amais;/ regozijai-vos com ela, sim, regozijai-vos,/ todos vós que fizestes luto sobre ela,/ pois mamareis e saciar-vos-eis do peito da sua consolação,/ pois sugareis e vos deleitareis da sua mama gloriosa.// pois assim diz o Senhor:/ “Eis-me a estender para ela a paz como um rio,/ e como uma torrente a transbordar a glória das nações./ Sereis amamentados,/ levados sobre os flancos,/ e sobre os joelhos acariciados.// Como um filho (’îsh) que a sua mãe consola,/ assim Eu vos consolarei;/ sim, em Jerusalém sereis consolados”» (Isaías 66,10-13).
  1. Se ouvistes bem, então reparastes que Jerusalém é apresentada como uma mãe, e que esta mãe tem todos os traços de Nossa Senhora dos Remédios, que amamenta e acalenta os seus filhos. Mas tereis reparado ainda que também Deus aparece dito com traços paternais e maternais, mais maternais que paternais, pois assume sobre si o papel de uma Mãe, daquela Mãe, que consola o seu filho, os seus filhos, como Nossa Senhora dos Remédios. E o belíssimo texto diz ainda que este filho, ou estes filhos que Deus, como uma Mãe, consola, já não são propriamente bebés, mas gente crescida (’îsh, e não yôneq). Sim, meus amados irmãos e irmãs, Deus cuida de nós, que estamos aqui, à maneira maternal de Nossa Senhora dos Remédios. Por isso, nos dirigimos com confiança a este Santuário.
  1. Que Deus vos abençoe e vos guarde, irmãos e amigos. Que Maria, Nossa Senhora dos Remédios, vos faça sentir, viver e transmitir a sua ternura maternal. Amen.

Lamego, Solenidade de Nossa Senhora dos Remédios, 8 de setembro de 2014

+ António, vosso bispo e irmão

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