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Bodas de Prata Sacerdotais | Pe. JOSÉ AUGUSTO MARQUES

Pe. JOSÉ AUGUSTO DE ALMEIDA MARQUES

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A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para a frente”. Soren Kierkergaard

A nossa vida, sendo um dom inestimável de Deus, deve ser vivida permanentemente como resposta agradecida a esse dom. A melhor forma de corresponder ao dom é doando-se e gastar a vida como uma dádiva de amor e serviço. Acordar todas as manhãs e poder contemplar a beleza da criação que Deus coloca nas nossas mãos é uma graça, mas poder sentir-se como parte integrante desta vida e colaborador com o Criador nesta obra é um dom que nunca conseguiremos agradecer plenamente.

Esta realidade coloca diante de nós dois olhares que se cruzam, se interligam e se complementam… é forçoso olhar para trás e reconhecer as marcas do passado que vão fazendo a nossa história… mas é também imperioso olhar para a frente e continuar a projetar o amanhã como um serviço à vida feito de pequenas sementes que irão gerar vida nova. Se nem sempre somos capazes de ter esta atitude de sentir que “presente” é dádiva do ontem para concretização no amanhã, há certamente momentos em que nós sentimos mais de perto a necessidade deste duplo olhar que nos faz sentir vivos, mergulhados numa história que dá sentido ao hoje da nossa existência e nos faz olhar o mais além como espaço de realização para a continuidade da nossa história.

Hoje vivo mais de perto uma dessas oportunidades ao celebrar as Bodas de Prata Sacerdotais. Olhar para trás e agradecer o dom de Deus obriga-me a continuar a olhar para diante e a disponibilizar a minha pequenez para que Deus continue a realizar a Sua missão. Eis o “presente” que conjuga este duplo olhar e nos faz sentir a vida como dom em permanente doação.

  1. Como foram vividos estes 25 anos de missão?

“Fui alcançado por Cristo, por Ele tudo deixei…” (Fil. 3, 12) Foi com este lema que há 25 anos me entreguei ao Senhor para o serviço da Sua Igreja. Olhar para trás e fazer a retrospetiva deste percurso traz-me forçosamente à memória um sentimento – a gratidão.

Agradeço a Deus o chamamento e a aceitação da minha humilde resposta. Hoje tenho a certeza que Deus precisa apenas da nossa disponibilidade, Ele faz o resto… tantas vezes me deixou verdadeiramente confundido ao servir-se da minha pequenez para a realização da Sua missão… tantas vezes experimentei essa verdade de S. Paulo “quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2 Cor. 12, 10), porque atua a força de Deus … ou esta, “trazemos, porém esse tesouro em vasos de barro, para que tão excelso poder se reconheça vir de Deus e não de nós.” (2 Cor. 4, 7) Tenho consciência de que o Seu amor e a Sua graça sempre supriram as minhas limitações e, por isso, tudo coloco nas suas mãos, pois tudo Lhe pertence.

Tive a graça de nascer e crescer numa família de fé e de vivência cristã que alimentou e incentivou a minha caminhada vocacional e o meu sacerdócio. A minha gratidão vai também para eles, porque prescindiram de mim para me entregar ao Senhor. Ele lhes dará a recompensa que eu, nem sempre, soube ou pude dar. Do mesmo modo, agradeço ao Senhor os colegas que caminharam comigo e se tornaram meus irmãos no sacerdócio. Foram apoio, incentivo e testemunho de fidelidade que me amparou no discernimento e na decisão.

Ao longo destes 25 anos tive oportunidade de experimentar sempre a importância da comunhão sacerdotal. Nas equipas com quem trabalhei no Seminário de Nossa Senhora de Lurdes, nas paróquias de Resende e Felgueiras, bem como no arciprestado de Resende, encontrei colegas que foram e são verdadeiros irmãos no sacerdócio, sábios mestres de orientação, referências de virtude no testemunho. Não teria percorrido o caminho da mesma forma sem eles. Foram um apoio e são uma âncora em quem continuo a confiar. O meu reconhecimento por me fazerem sentir em fraterna comunhão de irmãos e pelo caminho que me ajudaram a percorrer.

Não esqueço todos aqueles com quem fui fazendo caminho ao longo destes 25 anos – as várias gerações de seminaristas ao longo de 20 anos, os jovens alunos, colegas professores e funcionários do Externato D. Afonso Henriques ao longo de 26 anos, os paroquianos de Resende e Felgueiras ao longo de quase 20 anos. Sempre senti que a minha missão era a de fazer caminho com todos. No Seminário, na Escola ou nas Paróquias, sempre entendi a minha missão como uma presença de Igreja a apontar o único modelo que é Jesus Cristo. Com a consciência da fragilidade do meu testemunho, mas sem perder de vista o sentido da missão.

Lembro a promoção vocacional dos primeiros anos como membro do Secretariado das Vocações e responsável do Pré-Seminário e a riqueza que foi para mim o contacto assíduo com todos os adolescentes, as famílias, os párocos e as comunidades paroquiais dos quatro cantos da Diocese. Hoje dou graças a Deus pelos sacerdotes que são fruto dessa interpelação de Deus. Lembro as centenas de seminaristas e algumas dezenas de sacerdotes que ao longo de 20 anos pude acompanhar na sua decisão vocacional como Diretor Espiritual. Lembro os inúmeros alunos de Educação Moral e Religiosa Católica que pude acompanhar no Externato D. Afonso Henriques com quem procurei ter uma atitude de proximidade procurando envolvê-los na Escola e nas comunidades paroquiais. Lembro as crianças, os jovens, as famílias, os idosos e os doentes das comunidades paroquiais de Resende Felgueiras com quem vou procurando caminhar na direção de Jesus Cristo. Todos fazem parte deste trajeto sacerdotal e a todos agradeço pela colaboração, entreajuda e testemunho.

Lembro muito particularmente os colaboradores mais diretos com quem vou exercendo o meu sacerdócio nas comunidades paroquiais, os diversos grupos e movimentos paroquiais, as forças vivas, aqueles que se empenham de forma mais ativa e os que nos impulsionam todos os dias para a missão com o seu testemunho e vontade de ir mais longe e fazer mais e melhor. Todos me fazem sentir mais sacerdote pelo seu “sacerdócio” de doação.

25 anos têm sido um tempo de graça e um caminho de bênção. Olhar para trás permite-me sentir que fui abençoado por Deus pelo dom do sacerdócio, pelas pessoas que colocou no meu caminho, pelas oportunidades que me concedeu na realização da missão que me confiou, pelos desafios que me proporcionou para realização do Seu projeto. 25 anos não é muito, nem pouco tempo, porque o tempo de Deus não se quantifica, depende da intensidade com que o vivemos ao serviço da missão que Ele nos confia… não me compete avaliá-lo pelo resultado, senão pelo que significou para mim e, isso sim, posso dizer que tem sido uma bênção que nunca saberei agradecer o suficiente.

  1. Olhando para diante, que desafios se colocam hoje ao sacerdote e à Diocese/Igreja?

                “O futuro a Deus pertence”, diz o ditado, por isso coloco-o nas Suas mãos. Como Maria, digo apenas “faça-se a Sua vontade” (Lc. 1, 38). Sei que a Sua vontade é sempre mais importante que a nossa, por isso, continuo com a mesma disponibilidade de há 25 anos. Sei também que é apenas isso que Ele precisa, o resto é com Ele… quando Ele chama, capacita-nos para a missão, portanto não vale a pena esconder-se em subterfúgios aparentes, porque a missão é d’Ele, não nossa. Sabemos que os desafios que se nos colocam não são caminhos de facilidade, mas o caminho que Ele percorreu entre nós também o não foi… e o discípulo não é maior do que o Mestre.

                Identifico como principais desafios:

  1. A evangelização da Igreja num mundo secularizado onde o crescente materialismo leva as pessoas a uma religiosidade mais pragmática e interesseira do que de verdadeira e efetiva vivência;
  2. Os baixos índices culturais e de formação religiosa das nossas populações que dificultam a organização das nossas estruturas paroquiais e a evangelização com qualidade das nossa crianças e jovens;
  3. O envelhecimento drástico e a perda de população das nossas comunidades do interior que nos obrigam a uma pastoral mais de manutenção do que de inovação e criatividade;
  4. O abandono das nossas comunidades por parte das camadas ativas da população que não encontram saídas profissionais no interior e rumam ao litoral ou ao estrangeiro deixando as nossas paróquias sem as forças vivas e dinâmicas;
  5. A instabilidade da nossa população ativa e a constante necessidade de renovação das forças vivas das comunidades pelo facto da mobilidade permanente de jovens e adultos (quando começam a poder prestar um bom serviço, partem rumo a outras regiões ou países e temos de começar de novo);
  6. O empobrecimento real das nossas comunidades e as consequentes dificuldades na manutenção do património religioso e na sustentação do clero…

São desafios que se nos colocam… a nós compete tentar dar a melhor resposta, sabendo que em todos os tempos às crises sucederam novos tempos de vitalidade, porque é o Espírito quem guia a Igreja e não deixará de inspirar as pessoas e de a sustentar para que continue a ser Igreja de Jesus Cristo.

Da minha parte, continuo a ter confiança e a dizer ao Senhor que disponha da minha pequenez para o serviço do Seu Reino.

in Edição da Voz de Lamego, 10 de junho, n.º 4268

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